Os filhos da Malinche e a moral do escravo

*Luciano
…em tempos de desconfiança e de novas esperanças…

“Os filhos da Malinche”, capítulo do labirinto da solidão, de Octávio Paz, permite-nos uma reflexão a respeito da interpretação dos povos orientais e árabes como misteriosos e indecifráveis. Enquanto esta qualidade é aceita como positiva para estas nações, o latino-americano – em especial o mexicano – é recebido com desconfiança por apresentar estas mesmas características. O escritor traça um paralelo com a mulher, também compreendida como figura enigmática por ser crime e amor (deusas da criação e da destruição) na literatura mundial. É lembrado, ainda, que Luis Cernuda diz: “O desejo é uma pergunta cuja resposta não existe.” Tal provocação leva-me a questionar se o desejo é uma pergunta ou se a pergunta é um desejo.

A mulher é afirmada, por Paz, como a súmula definitiva de nossa ignorância, justamente por ser o mistério supremo. Simone de Beauvoir diz que ninguém nasce homem ou mulher, mas, sim, nos tornamos; e é diante desta cultura, ou seja, deste fato não-dado, não-natural, que podemos pensar na ênfase de Paz sobre podermos ser enigmáticos tanto para os estranhos como para nós mesmos. Afinal, o mistério é uma força ou uma virtude oculta, que não nos obedece e não sabemos quando se manifestará. Por outro lado, os objetos não ocultam nada porque não perguntam e nem respondem nada, enquanto prolongações de nossas mãos.

Nestas palavras de Paz, ao questionar o personagem operário por não protagonizar a literatura como a mulher em sua plenitude enigmática, encontramos, ainda, sua reflexão sobre o que ele chama de “moral de escravo” (traço de gente dominada com razão e oprimida, que teme e finge diante do senhor e, por isto, a sua intimidade jamais se revela de forma natural – sem estímulos de festa, álcool e morte). É a condição de escravo ou servo, fomentadora de apresentações cobertas por máscaras ora sorridentes ora austeras (gerando, assim, o medo do senhor e a desconfiança dos iguais) – cada um observa o outro, que pode ser um traidor em potencial. Paz, alerta que para sair de si mesmo é preciso, o servo, saltar barreiras para esquecer sua condição. Aprender a viver a sós, sem testemunhas, para que, diante da solidão, aprender a ser.

Diante deste cenário de baixa estima, a chamada Atitude Vital se faz necessária para compreender que os fatos históricos não são só fatos, porque estão embebidos de humanidade e, sobretudo, de problematicidade. Desta forma, é notável compreender que a História não é um mecanismo determinista, porque as circunstâncias históricas explicam o nosso caráter latino-americano, da mesma forma que o nosso caráter as explicam. Sendo assim, toda explicação histórica é insuficiente, ainda que verdadeira. Sabemos que os negros estadunidenses lidaram com situações concretas de racismo e intolerância explícitas; por outro, lado, historicamente, os mexicanos lutam contra vestígios do passado (e, por isto mesmo, são fantasmas invisíveis que habitam dentro de nós). E é por esta razão que o mexicano não quer ser ele mesmo.

Trata-se de uma situação difícil porque desaparecem as causas, mas persistem seus efeitos. Podemos estender este entendimento conflito-existencial do mexicano para o povo latino-americano, oriundo desta relação colonizador-colonizado.

É assim que se chega aos Filhos da Malinche -conhecidos como filhos da xingada-, pois o povo mexicano tem por hábito expressar de forma tensa -seja em estado de cólera, alegria ou entusiasmo- a frase: “Viva México, filhos da xingada!”. Os hijos de la xingada são os inimigos, ou seja, os rivais, por serem os filhos de mãe indeterminada. Esta mãe é uma espécie de mãe mítica -como a Llorona, ou a mãe sofrida, comemorada no dia 10 de maio-. Todavia, no caso de Malinche, ou xingada, ser filho desta é pior que ser filho da prostituta, visto que o termo está relacionado aos valores negativos carregados de ódio. O filho da prostituta, como diz o autor, é fruto da relação consensual da mulher; mas, o filho da xingada -leia-se Malinche- é produto da mulher estuprada e brutalmente usada e violentada. A associação do termo “Filhos da Malinche” com filhos da xingada encontra-se etmologicamente com todos os piores termos de todos os países latino-americanos, indo do entendimento de xingar da embriaguez até ser vítima de violência sexual. E como diz Paz, de certa forma, guardando as devidas proporções, a condição mítica da mulher, tanto como figura da criação como da destruição, nos leva a refletir sobre as fragilidades de estima do povo latinoamericano, tanto diante de si como diante do estrangeiro, por ser enigmático -enquanto o mistério dos povos, também milenares, árabes e orientais são vistos doutra forma que não a pautada pela correlação histórica entre colonizador-colonizado e opressor-oprimido-.

*Cosmo Luciano do Nascimento. Radialista, jornalista, arteeducador, licenciando em Pedagogia pela  e mestrando em Educação .

Referências outras:

PAZ, O. O labirinto da solidão e Post-scriptum. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2ª Edição, 1984.
Os filhos da Malinche>

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