Jogos educomunicativos e Etnomatemática

ethnicA matema (realidade) é interpretada por determinada tica (técnica) de acordo com o etno (cultura) de cada comunidade. A partir da consciência sobre a Etnomatemática como linguagem simbólica, com peculiaridades específicas encontradas em diversos grupos humanos, podemos caminhar rumo às práticas de alteridade, também, com relação a esse aspecto.

Notamos que o que se convencionou chamar de Matemática é apenas um dos tipos de etnomatemáticas existentes no mundo. Logo, ao inserir na proposta curricular a Matemática existente nas escolas estamos deixando de enriquecer a aprendizado com outras formas culturais de se ler a realidade. Desconhecendo isto, reiteramos práticas etnocêntricas e reproduzimos as condutas colonizadoras que, desde a chegada dos navegadores europeus, impôs sua visão de mundo e buscaram destruir as diferenças.

Essa postura é pautada na intolerância de convivência e implica em não dar vez, nem voz, para a Pedagogia do Oprimido, pois aqui quem se impõe às regras do espírito opressor do colonizador. Para atentar-se a isto, é preciso praticar a democracia na comunicação, sobretudo no ambiente escolar existente onde a Constituição garante o Estado de Direito.

Afinal, não se faz educação sem comunicação. E ouvir o educando é uma prática necessária para alcançarmos a alteridade para aprender e compartilhar saberes e valores. Comunicar é, também, saber ouvir – e quem sabe falar, sabe bem disto -. Saber ouvir, e sobretudo escutar, é poder ler o mundo respeitando a  cultura do outro. Isto exige uma postura antropológica de pesquisa-ação, tão bem explicitadas por Paulo Freire em diversas de suas obras.

O desafio da (edu)comunicação, como metodologia e prática pedagógica em prol da liberdade, é exercer a autonomia e a valorização dos ethos e das riquezas étnicas. Compreender a (etno)matemática como linguagem é saber se (edu)comunicar com o outro de forma horizontal, e não mais de maneira vertical como é característico nos processos colonizadores.

As redes sociais e o modus operandis colaborativos existentes no ciberespaço possibilitam os fluxos de inteligência coletiva da chamada “internet 2.0”, na Era dos Broadcatchings que substituíram os “broadcastings”. A Era da Comunicação mudou e com ela veio a Era do Conhecimento.

As novas práticas educativas são educomunicativas ao reconhecerem as vozes oprimidas e caladas por ultrapassadas teorias de comunicação (como a da “bala mágica” e da “agulha invisível) em que tínhamos, apenas, as figuras do emissor, mensagem e receptor. O receptor deixa de ser oprimido, neste novo cenário, e passa a, também, ser emissor, ou seja, sua mensagem circula em rede e é considerada válida, assim como outras técnicas de leitura da realidade.

Não há mais sentido, sobretudo no mundo pós-moderno, para vivermos no singular e impormos nossa visão de mundo aos outros. Ou seja, não há mais sentido para considerar só uma forma de ser, sentir e fazer para se viver no mundo. Em outras palavras: não há razão para vivenciarmos sob a égide de colonizadores e colonizados, opressores e oprimidos – sobretudo nas práticas educacionais. Muito pelo contrário: o saber se nutre de todos os saberes, sejam eles populares ou científicos. Conhecer se torna uma experiência rica quando nos (edu)comunicamos, isto é, quando damos vez e voz à comunidade escolar para permitir que educandos e educadores possam aprender e ensinar entre si de forma recíproca.

Aprender a linguagem matemática das cordas peruanas (quipos) ou os algarismos maias e romanos, sem impor como padrão a Matemática francesa, é estabelecer comunicação. E quando isto é feito na comunidade escolar estamos nos (edu)comunicando, por meio de uma pedagogia à luz do fio condutor da democracia na comunicação comunitária em plena na aldeia global. Reterritorizalizar é valorizar as culturas desterritorizaladas pelos interesses imperialistas. Respeitar o colo, a cultura, o saber dos povos e sua memória oral é saber viver em conjunto com o alter, o alien e suas diferenças.

As escolas municipais de São Paulo possuem estúdios de rádio – alguns com transmissão online pela internet – há mais de uma década -, mas, assim, como a Matemática na proposta curricular, podem aproveitar esta oportunidade para inserir as novas teorias da comunicação digital ciberativista, da mesma forma que precisamos aprender outras linguagens matemáticas.

(Etno)matemática e (edu)comunicação compreendem múltiplas linguagens, portanto, inúmeras culturas que precisam se (edu)comunicar. E a comunicação se dá por páticas de alteridade e jamais etnocentricamente de formas colonizantes e colonizadoras. Vivemos num mundo repleto de realidades (matemas), de verdades, de culturas, de plurais e não de um único caminho hermético imposto por aquele que crê no seu fato social como métrica padronizadora a ser imposta para todos os seres humanos.

O legado da Etnomatemática é fundamental para a formação humanista e, portanto, contribui para propormos em vez de pormos ou impormos valores (como diria o Professor Jorge Larrosssa Bondía em sua palestra sobre o saber de experiência). Enfim, aprender a praticar Etnomatemática ensina-nos a realizar a Pedagogia da Comunicação Comunitária e sermos, de fato, educomunicadores (sejamos estudantes, professores, pais etc).

“Um nascer do sol que traz novos tempos, novos dias e novas direções dos ventos”.
[1] Cosmo Luciano do Nascimento. Radialista, jornalista, arteeducador, licenciando em pedagogia pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e mestrando em Educação .
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2 respostas para Jogos educomunicativos e Etnomatemática

  1. marvi disse:

    Luciano, obrigado por compartilhar a sua reflexão. Hoje fiquei sabendo que a Finlândia não ensinará matemáticas -nos moldes tradicionais – a os estudantes…talvez seja o momento da etnomatemática.. http://mba.americaeconomia.com/articulos/notas/finlandia-ya-no-ensenara-matematicas-ni-historia-sus-estudiantes
    abs.

    • Obrigado, Professora Margarita, por comentar meu texto!

      A Finlândia faz (edu)comunicação ao fazer (etno)matemática. Abrir mão da matemática tradicional é abrir mão da comunicação tradicional também para entrar no campo da teoria da complexidade e da transdiciplinaridade moriniana.

      Esta notícia da Finlândia aponta para “Um nascer do sol que traz novos tempos, novos dias e novas direções dos ventos”.

      Agradeço-lhe pelo link desta boa nova direção dos ventos que mudam!
      Gracias!

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