O desaparecimento da infância

fim da infanciaTexto por: Deise Yuri, Revisão Mariana Netto.

Os rumos que a sociedade atual vem tomando nos incita a olhar, de forma crítica, para um sujeito singular da nossa cultura: as crianças. Não é difícil encontrar pensadores e teóricos de seus respectivos tempos que dissertem sobre a história, seu desenvolvimento e que, de fato, contribuíram em muito na compreensão do que é a infância e propostas para seu futuro. Neil Postman (1931- 2003), se torna singular quando o faz concomitantemente à sua análise sobre a infância e sua conexão com a comunicação.

Em seu livro O Desaparecimento da Infância este intelectual estadunidense da comunicação em relação com a educação, traça a historia da descoberta da infância e prova, inteligente e assustadoramente que, mediante as condições niveladoras de informações entre adultos e crianças, ela está desaparecendo. Seu livro divide-se em duas partes. A primeira, cujo nome é A invenção da Infância, retrata como a humanidade concebeu a consciência do sujeito-criança.

Em seus capítulos um e dois, o autor mostra que a infância, mais que uma categoria biológica, é, definitivamente, um artefato social, uma ideia construída no seio da cultura letrada, quando a sociedade moderna, em seu processo de disseminação da informação e subsequente explosão do conhecimento – iniciado na Europa, no período da Renascença, com a invenção da prensa tipográfica, em meados do século XV – começara a sentir a necessidade de encontrar um lugar para o grupo que ora havia sido deixado pra trás por ser excluído da produção impressa – a saber, a infância.

Esta nova categoria, afirma Postman, só foi descoberta com a sua segregação da emergente sociedade instruída e do novo adulto letrado que se formara, fruto da revolução na comunicação que o prelo instaurou. Antes deste período, na chamada Idade Média, o autor relembra, utilizando-se de múltiplas referências, que não havia distinção entre adultos e crianças, tal como concebemos hoje e que, ambos eram homogeneizados, tornando a criança invisível – ou inexistente – entendendo-a como um adulto em miniatura.

Postman reúne então, inteligentemente registros para configurar o modo de enxergar a criança na era medieval – ou melhor dizendo, de não enxergar, mostrando que ela era compreendida como qualquer pessoa adulta: trabalhando com adultos, não tendo modos – por assim dizer, educáveis, não sendo protegida de linguagem obscena ou maliciosa e mais nocivamente, do conceito de vergonha (pudor) – a qual o autor defende ferrenhamente que, sem esta noção, é impossível conceber a infância, pois acredita que esta só possa existir numa cultura em que se separam adulto e criança (protegida de informações que têm a potencialidade de descaracterizar sua natureza inocente, curiosa e maleável, e de corroer sua tão bela imagem, bem como entornar sua personalidade).

Nesse sentido, o autor descreve que jamais a infância teria sido identificada se não houvesse a exclusão dos que ainda necessitavam aprender a ler e escrever, do mundo letrado dos adultos. Esta expulsão fez com que a sociedade percebesse que aquele ser que haveria ainda de ser alfabetizado era diferente dos adultos.

Aí, nos mostra Postman, que se encontrou um novo campo de conhecimento e etapa da vida, que se definiria pela infância. Ele dedica os capítulos quatro e cinco do seu livro ao início dessa nova concepção e à sua jornada: relata que ela foi aparecendo sorrateiramente – menos de um século depois da prensa tipográfica – em publicações de medicina e de boas maneiras, acompanhando a crescente produção e expansão do conhecimento, pela qual, ela mesma se nutria, definindo a criança como possuidora de natureza específica e de necessidades singulares, mas ainda necessitaria de duzentos anos para se consolidar.

Seu reconhecimento só acontece depois dos séculos XVI e XVII e é neste último que ela se propaga pelo cenário mundial, sendo recebida de acordo com o seu contexto econômico, religioso e intelectual das diversas sociedades, e por isso, é entendida culturalmente de diversas maneiras: segundo o autor, abrilhantada, apagada ou hostilizada, mas nunca desaparecendo completamente. Encontra na escola – de natureza classificatória e de divisão em grupos etários – seu fortalecimento.

Nestas instituições, esse conceito de infância se tornou mais veloz, ficando ela incumbida da alfabetização, como também da formação posterior dos jovens, prolongando o tempo em que a criança ficava longe da responsabilidade e exigência do mundo adulto, visão esta que favoreceu na sua diferenciação: vestuário propriamente infantil e linguagem diferenciada dos adultos, proliferação de livros de pediatria e aparecimento da literatura infantil – que também eram acompanhados pelo novo modelo de família – tida agora como instituição educacional –, que passava a ter uma noção mais definida de assegurar a educação, privacidade, sustento e fé dos seus filhos, começando, primeiramente, na classe média e um século depois, nas classes mais baixas.

O autor continua seu percurso sobre a história da infância, chegando aos meados do século XVIII, em que relata que a revolução industrial, iniciada na Inglaterra, foi uma inimiga e em outras palavras, pesadelo das crianças, em que os filhos dos pobres serviriam de mão de obra barata, em austeras condições de trabalho, tendo somente alguns a sorte de poderem frequentar a escola. Mesmo assim, a ideia de infância, na nação, era alimentada e difundida, prosseguindo em sua jornada, com a crescente sanção de leis particulares à criança, a responsabilidade governamental pelo seu bem-estar e a contribuição de intelectuais sobre ela, como Rousseau e Locke.

A segunda parte do livro de Postman: O desaparecimento da Infância, destina-se às transformações na comunicação de informações – que ora tornaram a infância inevitável – e como lamenta e alerta o autor, estão fazendo-a desaparecer. Dos capítulos cinco ao oito ele mostra que a infância chegara e permanecera nos Estados Unidos, mas devido ao acesso desenfreado de informações estaria a expulsando, novamente.

Ele descreve que a infância atingiu seu pico entre 1850 e 1950, dos meados do século XIX aos meados do XX, não a eximindo da dor e perplexidade inerente a todas as etapas da vida, mas conseguindo, durante este período, se livrar das fábricas, terem todas as suas crianças colocadas em escolas, acolhidas em seu próprio mobiliário, apresentados a seus próprios jogos, literatura e mundo social, bem como sendo delegados a seus pais afeição e responsabilidade por elas.

Porém, nos mostra Postman, que esta esfera começara a se dissolver com os desdobramentos da comunicação elétrica, iniciada pela invenção do telégrafo, que, da mesma forma que a prensa tipográfica, teve desdobramentos inimagináveis por seus inventores: no caso deste, levou o mundo além da experiência humana, dando à informação um caráter simultâneo, instântâneo, impessoal, global e mais significativamente, sem controle – arretabando-o do controle do lar e da escola.

Neste cenário, o autor conta que despontaram uma série de invenções e meios de comunicação pela imagem que afetaram significativamente a estrutura social e intelectual da sociedade e que alteraram a construção de pensamento, racionalidade e contextualização imposta pelo mundo letrado. Entre eles, ele destacou a televisão, que contou se instalar nos domicílios americanos lançando todo e qualquer tipo de informações, não segregando o seu público e não requerendo dele habilidade nenhuma – de forma efêmera, passiva e que equipara a criança a um adulto – principal motivo de que Postman acredita dar-se o desaparecimento da infância.

Postman defende que as crianças diferem, essencialmente, do mundo adulto pela informação que detém, razão pela qual entende que o conhecimento, para a criança, deve ser limitada à sua sensibilidade, com a regulação do lar e da escola – únicas instituições que diz ele, serem interessadas por ela -, assimilando as informações e valores por etapa, à medida em que ela vai crescendo.

A revelação dos segredos dos adultos, para o autor, não é só feita pela televisão, mas poderia ser observada em qualquer meio de comunicação que se ligasse à tomada, devido ao caráter passivo e desprotegido de quem a ele se submete. Assim, dos séculos XX em diante, o autor aponta que os efeitos deste tipo de comunicação foram sendo a eliminação da distância entre o mundo adulto e infantil, em que estava se dissolvendo a identidade de ambos.

Na criança, já esta sendo perceptível este fato em vários aspectos: nas roupas infantis que copiavam o estilo adulto, na má alimentação a exemplo dos adultos, na linguagem “adultizada”, no desaparecimento da brincadeira espontânea e jogos infantis, na profissionalização dos esportes, na mesma preferência de entretenimento por adultos e crianças, no aumento da criminalidade infantil, no abuso do álcool, na perda do conceito de boas maneiras, da autoridade do adulto, da civilidade e da sua natureza curiosa e esperançosa pela vida.

Como se já não bastasse esse tipo de criança-adulto, o autor ainda denuncia que neste mesmo ambiente era possível já compreender o desenvolvimento do adulto-criança, que, ao invés de distinguir-se desta pela sua atitude racional e responsável sobre si, com a vida e com o futuro, estava se fundido a ela em suas potencialidades intelectuais e emocionais, infantilizando sua linguagem e tendo definhada a sua consciência política.

No final do texto, em seu capítulo nove, Postman ainda formula seis perguntas, sem o objetivo de oferecer soluções, mas de melhorar a compreensão e reflexão dos problemas levantados, a qual esclarece que o problema seria de ordem cultural; de que, com ressalvas, haveria somente uma tecnologia de comunicação que teria o potencial de sustentar a necessidade da infância – a saber, o computador: por poder requerer habilidade específica para seu uso; e que a escola e a família ainda poderiam resistir a cultura americana imposta, inimiga da infância.

O livro, de fácil linguagem, porém de firme sustentação teórica e coerência, nos desperta a preservar a infância – que tão dificultosamente se formou durante os séculos – e a não nos eximirmos de nossa responsabilidade da educação das crianças – sejamos como pais, educadores ou sociedade. Este imperativo também é encontrado no provérbio bíblico: “Educa a criança no caminho em que deve andar” (BÍBLIA, Provérbios 22:6), a qual não é referido por Postman em sua obra, mas acompanha-o no mesmo compromisso outorgado aos adultos.

Postman não ousa definir esse caminho, mas aponta o que para ele é prejudicial, extremamente danoso e visivelmente mortal, com base na sua observação crítica e curiosa sobre o desenrolar histórico da infância, da cultura americana e do seu próprio tempo, que já não difere muito da realidade brasileira, a qual cada vez mais evidencia os prenúncios desse desaparecimento em sua cultura e já nos apresenta uma ascensão da autoridade infantil sobre os adultos (VINES, 2013) – os quais tornam vivas as percepções de Postman.

À medida que o leitor as vai percebendo – na leitura do texto e do seu redor – é envolvido por um sentimento de piedade, amorosidade e complexidade da criança, que aponta o seu olhar não só para o curso da infância, mas principalmente para a sua singular humanidade.

O texto, permeado por uma posição política clara, que contraria a dominadora, seja ela dos Estados Unidos ou do Brasil, responde muitas indagações sobre como agir diante da informação e do conhecimento do século XXI em relação às crianças, e de qual educação escolher para elas, em qualquer sociedade em que se utilize a tecnologia. É um livro formador, necessário e profético – que denuncia a opressão e sustém a esperança.

Referências
POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Tradução de Suzana Menescal de Alencar Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Graphia, 2012.
VINES, Juliana. Pequenas autoridades. Folha de São Paulo, São Paulo, 12 Mar, 2013, Equilíbrio, p.3-5.
BIBLIAONLINE. Livro de Provérbios. Bíblia Sagrada: Versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Tradução em Português. Provérbios 22, vers. 6. Disponível em http://www.bibliaonline.com.br/acf+acf/pv/22. Acesso em 16 Abr 2013.

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