Movimento, cultura e educação em tempo de Copa

brazilian revolutionPor conta das atividades acadêmicas de encerramento do semestre e o inicio da Copa do Mundo o post semanal demorou. Mas, nestes dias, pensei em duas questões: a do “movimento que se demonstrou andando” e na presença do livro na nossa cultura, e como isso, em relação, afeta nossos fazeres e opções.

No caso do primeiro, percebemos que a rede social continua se expandindo e que os brasileiros são uma expressão singular dela. É curioso notar o quanto os movimentos de maio/junho de 68 na Franca, o de junho de 2013 e ainda o maio/junho de 2014 no Brasil, por exemplo, estão vinculados a processos culturais, políticos e educacionais planetários. Caracterizam-se por expressar épocas culturais, econômicas, tecnológicas, comunicacionais, educacionais, sonhos de jovens e anseios de mudanças socioeconômicas dominadas pelo consumismo, pela desigualdade social e pelas poucas oportunidades de realizações.

Em 1968 os meios de comunicação, centrais no contexto, mostravam a revolta estudantil e a greve relacionada a ela, resolvida com o adiantamento das eleições; no Brasil de 2013 mostraram a manutenção do preço do bilhete de transporte urbano e, em junho 2014, a greve dos metroviários de São Paulo que foi suspensa com a realização da Copa. É claro que há outros, complexos e rizomáticos, mas, tanto o movimento cultural francês como o brasileiro ocorreram com a iniciativa dos jovens e com o amplo uso das mídias de comunicação, às que hoje se somam a internet e as redes sociais. Mas, alerta! Todo movimento, até o sexual da década de 60, foi cooptado por grupos econômicos. No âmbito educativo, reformas universitárias foram realizadas na Argentina, em Praga, no Brasil, no México, entre outros países e, também, hoje, grupos faturam com as redes sociais e com a educação. A briga continua com setores gatopardistas, com aqueles que querem mudar para manter tudo igual: o poder nas mãos dos monopólios de diversos âmbitos até dos meios de informação e comunicação.

Estes, que historicamente sustentaram e veicularam os recursos educacionais, de ensino, de leitura e escrita, hoje, estão novamente em pauta. Quem estudou na década de 60 ou, como eu, na década de 80, com certeza se lembra da dificuldade que tínhamos para nos comunicar pelos meios e ainda mais para comprar livros, pelo preço e porque demoravam em chegar em cidades que não eram a capital do pais. E, quando procurávamos os livros, indicados na área de estudo, os exemplares da biblioteca já estavam emprestados e/ou reservados. Por vezes, o máximo que conseguíamos eram xerox de partes de livros ou textos datilografados reproduzidos em copias. Naquela época os grupos de leitura e estudos eram comuns, neles se emprestava, se socializava e se compartilhava com o colegas.

Hoje o livro, embora continue sendo um artigo de luxo, é mais acessível. O xerox não obstante ilegal é uma pratica altamente realizada, os repositórios de recursos abertos de aprendizagem, com livros em pdf e textos completos de artigos científicos, entre outros, estão de maneira gratuita na internet. Mas, as atuais políticas editoriais também estão mudando? Por exemplo, a editora Miño & Davila oferece a versão impressa ou ainda o e-book com a possibilidade de descarregar alguns títulos gratuitamente em versão básica (pdf). A possibilidade de ler um bom livro, pela diversidade de opções, é um fato e, as redes sociais e a web tem facilitado isso enormemente.

Mas a questão vai além da aquisição ou acesso ao livro, está no conteúdo e no referente cultural de quem o lê. No comentário “Celular e literatura”, Hernán Casciari nos conta uma historia que trataremos de reproduzir aqui:

Ontem à noite eu contei à minha filha um conto de fadas muito famoso, Hansel e Gretel [João e Maria], dos Irmãos Grimm. No momento mais sombrio da aventura, as crianças descobrem que algumas aves têm comido as migalhas de pão estratégicas, um sistema muito simples que os irmãos tinham inventado para voltar para casa. Hansel e Gretel ficam sozinhos na floresta, perdidos, e começa a ficar escuro. Minha filha me diz, nesse ponto do clímax narrativo …
-Não importa. Que chamem o pai pelo celular.
Então eu pensei, pela primeira vez, que a minha filha não tem noção da vida além do telefone sem fio. E, ao mesmo tempo descobri quão terrível resultaria a literatura se o celular houvesse existido sempre, como ela acredita. (…) Pense o leitor, agora, em uma história clássica que sabe de cor, com uma introdução, nó e desenlace. Está? Muito bem. Agora coloque um celular no bolso do protagonista…como os que existem hoje com conexão a e-mail e bate-papo, mensagens de texto e capacidade de fazer chamadas internacionais. Que ocorre com a história escolhida? Será que a trama flui como a seda, agora que os personagens podem ser chamados a partir de qualquer lugar, tem a opção de chat, criar um vídeo e enviar-se mensagens de texto?

Casciari acredita que a telefonia inalámbrica (sem fio) vai destruir as velhas historias que narramos, que as converterá em anedotas tecnológicas de qualidade menor.

É evidente que os movimentos via redes e a cultura da escrita e da leitura compartilhada geram novas narrativas, que coexistem, resignificando as antigas e dando sentido às novas. Se quiserem entrar em qualquer movimento, repensem estas questões e aproveitem para consultar os repositórios de recursos impressos ou digitais, procurem um bom livro para ler, o máximo que pode ocorrer, no digital, é acabar a bateria de seu celular, tablete ou computador, ou ainda a velha e bem-querida energia elétrica… Entre movimentos, leituras e significações a escolha de um livro, artigo, vídeo, fotografias, uma música e curtir o tempo livre, nos permite boas historias que merecem serem contadas!

Veja a seguir algumas dicas de repositórios gratuitos:

Literatura digital (Brasileira): http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/
Biblioteca digital mundial: http://www.wdl.org/pt/

Mundo infantil e crianças

Domínio publico: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp
Scielo – Artigos científicos: http://www.scielo.org/php/index.php
Excelentes livros de literatura brasileira e estrangeira http://portugues.free-ebooks.net/
Livros variados: http://livros.universia.com.br/

Música:
http://www.freesound.org/ (web espanhol)
http://freeplaymusic.com
http://www.musopen.org (musica clássica)
http://www.classiccat.net/ (musica clássica)
http://www.mutopiaproject.org/ (musica clássica)

Vídeos:
http://www.archive.org/details/movies
http://www.moviesfoundonline.com
http://www.open-video.org/

Fotos e imagens:
http://sxc.hu/
http://www.morguefile.com/

Boas férias! Boa copa, já estamos no movimento!

 

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10 respostas para Movimento, cultura e educação em tempo de Copa

  1. Adorei o texto… meu desfecho bem simples, sobre o celular no bolso de joao ou maria… Joao/maria retiram o celular do bolso e nossa! esta sem bateria… assim a historia segue seu contexto clássico. Forte abraço.

  2. Sa disse:

    Antônio, ótimo, mas concordo em parte, acredito que a história já não será a mesma! Abraços

    • Eh verdade… parando para pensar, acho que nenhuma historia é a mesma, a partir da sua criação e com o passar do tempo inúmeros outros fatores podem provocar mudanças, o contexto, a interpretação, a cultura de quem ouve, de quem conta e da forma como ela eh contada… assim as novas gerações podem provocar (ou não) suas mudanças… sera que estas mudanças serão naturais!? deixo mais esta reflexão. Abracos Sa

  3. Sa disse:

    Antônio, veja a pesquisa da Unesco, 62% das pessoas entrevistadas preferem ler nos smartphones a pegar nos livros e 33% leem para seus filhos a partir dos dispositivos, e reclamam da falta de obras infantis. http://www.theverge.com/2014/4/23/5643058/mobile-phone-reading-illiteracy-developing-countries-unesco

    E, considere que essas iniciativas com celular contam com a parceria’ da Samsung, Nokia e outras empresas com seus interesses, ou seja o uso do celular não parece ser um opção para a leitura, que histórias são essas que lhes contam os livros escolhidos para eles? As mudanças são sócias e políticas. Abraço,

    • Ola Sa.
      Vi o artigo; pelo que entendi a tecnologia estah melhorando o acesso e o interesse pela leitura, em locais onde a chegada de livros eh muito dificil…
      Sendo assim vejo sua questao com relacao a mudanca do livro, para a leitura por meio da tecnologia, Voce questionou o conteudo e os interesses das industrias, eh isso?

      Acho que estamos trocando ideias sobre novas questoes, ampliando o universo da leitura para os aparelhos no lugar dos livros…

      A ideia inicial foi que Joao e Maria na visao da crianca poderiam chamar o pai pelo celular quando se perderam…mudando a historia…

      Claro que podemos continuar conversando sobre estes desdobramentos …

      Foi uma surpresa nossa conversa e encontro… por meio da tecnologia,
      Agora estou esperando sua resposta, ansioso rsrs.
      Ah, voce mora em são paulo? Estou ajudando a organizar, em setembro, uma feira do livro na cidade de Diadema no ABCD – SP.
      Se morar por aqui, já esta convidada,
      Abracos,

  4. Sa disse:

    Antônio, realmente, os desdobramentos são múltiplos, aí ‘e que se encontra a riqueza da questão. Aceito, em princípio, o convite e continuamos a conversa em Diadema. Vc já tem data e local ? Obrigada. Abraços,

    • Ola Sa, nossa Feira do Livro sera dias 25, 26 e 27 de setembro,
      estamos fechando as pautas com palestrantes, mesas e editoras. Está na 3a edicao, ainda modesta, mas estamos ganhando fôlego para quem sabe criarmos uma Feira Nacional no ABCD em 2015, pois já esta sendo aprovada uma Lei na cidade.
      A propósito, posso conhecer voce, pode me enviar suas publicações? Tem algum livro com este tema? Acredito que sera tratado em uma mesa. Quem sabe não possa participar?
      Sou professor universitário há 15 anos, palestrante corporativo e atualmente trabalho com gestão de pessoas nos setores cultural e educacional em Diadema. Estou terminando um livro sobre Dança Educacao para publicar em breve. Fui bailarino profissional por 15 anos e tenho mestrado em Educacao Fisica e Saude
      Abracos, prazer em conhece-la,
      Ate mais…

  5. ARH disse:

    “João e Maria” nos fala do medo do desconhecido. Temos mais medo com ou sem celular?
    Nos comunicamos para avisar que chegamos, saímos, estamos a caminho…
    E quando esquecemos o aparelho em casa, como nos sentimos?

    • Marvi disse:

      outro desdobramento interessante….como nos sentimos? Como se sente a criança? angustiada? com medo? Como educar o medo ? Como se aproximar do desconhecido? Abçs.

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