Pedagogia Waldorf : corpo, tecnologia e educação

Waira Albrich e Margarita Victoria GomezMargarita Victoria Gomez – MVG.
Waira Alberich é formada em Pedagogia Waldorf, com especialização na educação infantil, atualmente estuda Euritmia em Dorf na Suíça. A Pedagogia Waldorf foi criada pelo austríaco Rudolf Steiner bem como a filosofia antroposófica, espiritual, e a euritmia. Steiner considera que o «o pensamento é um órgão de percepção igual ao o olho e o ouvido. Do mesmo modo que o olho percebe as cores e o ouvido os sons, assim o pensamento percebe as idéias». Em recente visita ao Brasil, concedeu uma entrevista para o blog Pedagogia da Virtualidade.

MVG: Como é pensada a utilização do computador e das tecnologias nas escolas?

Waira: Na educação infantil, a Pedagogia Waldorf não incentiva de forma alguma o uso do computador, porque acredita que a criança se desenvolve e ganha todas as suas habilidades a partir do movimento do corpo, desde a motricidade grossa até a motricidade fina. A criança vai se educando a partir dos membros, está sempre em movimento, num ritmo muito organizado. Exemplo, na segunda-feira ela faz uma aquarela; na terça ela faz pão; na quarta ela faz euritmia; na quinta ela pinta… Enfim, a criança, nessa época, ainda não tem a sinapse, não sendo hora de trabalhar a motricidade fina, é hora de aprender, de conhecer e de trabalhar esse corpo.

Isso até os sete anos, quando a sinapse do cérebro já está pronta para a memória e para o aprendizado em si. A criança pequena aprende com o corpo, não aprende com a consciência. Quando chega ao primeiro ano ela tem equilíbrio, sabe andar de perna de pau, sabe pular corda, tudo isso vai ajudar na hora de aprender a escrever. Quando a criança entra no ensino fundamental, também não existe computador, então vai sempre aprender pela memória, através do brincar, através da fantasia. Então uma letra é sempre ensinada, por exemplo, dentro de um conto de fadas – uma vez ensinei para uma criança a letra T, no primeiro ano, e a letra T estava no desenho de lousa da Torre da Rapunzel, então, de repente, se faz a associação e o aprendizado é muito mais imagético do que a criança ter que decorar, não existe decorar, existe o memorizar de outra forma. E isso vai ao longo de todo ensino fundamental. Elas vão ter todo o currículo básico das escolas normais, só que vão trabalhar com os membros. Elas vão ter euritmia, trabalhos manuais, fazer pão, cuidar do jardim, trabalhar na horta, enfim, sempre trabalhando com o corpo.
Essa questão da virtualidade, da criança sentar na frente do computador, não é necessária, pois a mesma só fica mexendo o dedo, então esse corpo começa a definhar, não tem mais equilíbrio, praticamente não sabe mais brincar, ela vai, de certa forma, se desligando do mundo real. Então, em vez de jogar futebol no campo, fica na frente de um videogame chutando o ar, lá dentro da tela é que está acontecendo o mundo.

MVG: E, fora das escolas o que ocorre?

Waira: Em casa as crianças usam, mas a ideia é trabalhar com os pais. Não adianta o pai colocar o filho na escola Waldorf e dar para a criança um computador com quatro anos de idade. Pode acontecer… Antigamente a Pedagogia Waldorf era bastante fechada, mas hoje se percebe que não pode se fechar para o mundo. Só é recomendado aos pais que a criança brinque do lado de fora, que não passe o dia na frente do computador.

MVG: Quais os recursos didáticos nas escolas?

Waira: Na escola Waldorf a criança não tem nem livro didático, ela faz o seu próprio livro didático, escreve o texto, faz anotações, faz os desenhos, pinta, faz o entorno, a margem, escolhe as cores… Esse livro você nunca mais esquece… fica com o aluno para poder mostrar num bazar da escola. Vale a pena ir em outubro, inclusive, na escola de Rudolf Steiner, é maravilhoso, os cadernos das crianças são obras de arte. Segundo Steiner, “antes ser professor tem que ser um artista”. É transformar a matéria ensinada em algo vivo. Uma criança da escola Waldorf, às vezes, sabe te dizer cada nome de flor, cada nome de planta.

MVG: Retomando a questão do corpo, como esta filosofia antroposófica o concebe?

Waira: O corpo é uma das coisas mais importantes da pedagogia Waldorf: é a nossa morada nesta vida, tem-se que trabalhar esse corpo, cuidar e aprender. As crianças vão estar envoltas pela ideia de que através dos membros a gente age no mundo. Então, o nosso agir tem que ser belo, o agir tem que ser bom… as crianças do ensino fundamental são pequenos filósofos. As crianças sabem falar sobre o que estão aprendendo, elas conversam sobre os temas, depois podem reproduzir os mesmos nas brincadeiras. E o pensar é o que finaliza. Até os sete anos trabalha-se tudo o que é movimento, as crianças vão se movimentar muito. Depois, dos sete aos quatorze anos, as crianças vão aprender muita arte para elaborar e fortalecer essa parte do meio, isso que eles chamam de resiliência. Elas vão aprender o que é o belo, o que é o bom. Depois, a partir dos quatorze anos, vão entrar no ensino médio, vão descobrir as verdades. Steiner disse que “o professor do ensino médio tem que amar muito a vida e o que ele ensina”. A criança ou o adolescente se perceberem que o professor preferia estar vendo televisão, ou mexendo no computador, eles não vão dar crédito para esse professor, porque ele não está de acordo com a sua própria verdade. As crianças querem saber as verdades do mundo. No ensino médio vai a campo, vai conhecer as cidades onde aconteceu a mineração, onde aconteceu a extração de ouro, vai falar se o que aprendeu na escola é verdade mesmo.

MVG: E no ensino superior?

Waira: O ensino superior vai até os dezoito anos e o curso de Pedagogia Waldorf é realizado nos Institutos próprios. É uma proposta aberta para o mundo, no passado só estavam abertas para receber a família que era “antroposófica”, ou que achava que era “antroposófica”. Sei que em Nova Friburgo tem duas escolas Waldorf que são públicas. Na Alemanha, as escolas Waldorf são públicas. A escola que fundamos em Olinda é uma escola social. A pedagoga e cientista social Ute Craemer trabalha nessa dimensão social na Favela Monte Azul, aqui no Brasil. Também, nos últimos cinquenta anos, pessoas escreveram coisas muito importantes, por exemplo o médico pediatra Carl Konig, enfim, conheço um outro professor que escreve, é uma pessoa totalmente atual, está pensando as tecnologias digitais e muito inserido com a juventude.

MVG: Waira, que sujeito é esse na Pedagogia Waldorf?

Waira: Ele é visto como um ser humano integral, que age, que pensa e que sente, é um organismo trimembrado. Você vai sempre ensinar o pensar, sentir aquilo através da arte e a ter uma atuação… entender aquilo como um processo e não como uma coisa pronta no papel, um conceito morto. Então, o ser humano é visto como um ser humano integral, você nunca vai ensinar só o pensar.

MVG: Com relação à religião, é inserida na educação?

Waira: Nas escolas Waldorf tem aula de religião. Significa religare, religar. A criança, na educação infantil, vai aprender a devoção, então vai aprender a cuidar da terra, aprender a cuidar da natureza, ela vai aprender a cuidar das coisas dela. Então vai ter hora de brincar, vai ter a hora de arrumar, ela vai arrumar as coisas com devoção, sempre vai ter uma música acompanhando como dobrar um paninho, vai colocar cada coisa no lugar, ela vai sempre agradecer à mãe Terra e ao Sol pelos frutos que ela pôde comer nesse dia, e isso é a religião real, é a religião que todo ser humano, na verdade, tem dentro de si, e não essa religião que veio imposta pela igreja. A religião é isso que liga a gente, que faz a gente lembrar que não somos só um corpo material, que temos um espírito e esse espírito vem de uma outra morada. E relembrar e agradecer a essa morada é agradecer a esse corpo de ter recebido esse espírito nessa vida.

MVG: Como se expressa esta filosofia na dança?

Waira: A euritmia é só antroposófica. É a única filha legítima, é uma arte do corpo vai trabalhar o corpo rítmico, o material, o físico, o corpo astral, o social, o corpo do eu, da individualidade… Na antroposofia temos todas as artes e cada arte é vinculada a um corpo, por exemplo, a arquitetura é correspondente à arte do corpo físico…, a gente tem os corpos mais sutis e a euritmia é a primeira arte de corpo mais sutil e é uma arte que quer, através do trabalho do corpo etéreo que é esse corpo dos ritmos, trazer a saúde de volta, trazer de novo o equilíbrio do corpo físico. Então você vai trabalhar sempre a parte de gestos que vão, enfim, trazer um equilíbrio e uma cura para o corpo físico de forma artística sempre.

MVG: Que ritmo é esse?

Waira: É o ritmo mesmo, curto longo, longo curto, os ritmos têm duas correntes, existem os ritmos que começam com curto, também tem os ritmos que começam com o longo. Então quando você faz todos os ritmos que são curtos, os ritmos do eu para fora, são os ritmos Dionisíacos. E todos os ritmos longos são os ritmos de Apolo, então os ritmos curtos são os ritmos do agir e os ritmos longos são os ritmos do pensar, já que Apolo é o pai do pensar, é a luz, é o sol; Dionísio é do agir, então é dos membros. Heráclito, também, curava com o ritmo, inclusive os poemas, se você pegar poemas de Goethe, de Schiller, todos têm um ritmo.

MVG: Waira, muito obrigada pela sua contribuição, que nos aproxima um outro olhar pedagógico.

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6 respostas para Pedagogia Waldorf : corpo, tecnologia e educação

  1. Inês Carvalho de Farias Thorpe disse:

    Muito bom poder ampliar o círculo de pessoas que compartilham essa linguagem, essa cosmovisão!
    Abraços para ambas,
    Inês.

  2. Victoria disse:

    Querida Inês, foi um belo gesto a abertura da Waira para este diálogo especialmente neste espaço freireano. Ainda temos muito por aprender e Waira abre espaço para uma reflexão e um debate importante!
    Beijos, Victoria

  3. teledesigner disse:

    Bacana essa devoção que leva a criança a aprender a cuidar da natureza.
    As crianças são nossas esperanças de voltarmos nosso olhar para os primórdios da humanidade! São princípios de fundamental importância na educação infantil.

    • . disse:

      A questão da devoção, o cuidado de si, do cuidado do outro, das coisas e da natureza é maravilhoso. É bom pensar nisso na educação de crianças, jovens e adultos.

  4. celiaguazzelli disse:

    Muito interessante essa entrevista, destaco a importância do ensino religioso diferenciado, voltado para o agradecimento à vida, ao alimento e o respeito aos outros. Incentivar as crianças a respeitarem a natureza e o próximo desde pequenas ajudaria até mesmo a pensarem melhor sobre si mesmas e sobre seu papel cidadão.

  5. Enzoo Brezolin disse:

    Entrevista maravilhosa sobre PW, tenho interesse em saber quem está trabalhando com tecnologias digitais na PW…..por favor envie-me contato.

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