Na contramão das respostas prontas

Gostei e compartilho com vocês parte do prefácio que a Profa. Ilana Strozenberg escreveu para o livro “Educar na contemporaneidade…”, obra de leitura indispensável, é um convite pra pensar e fazer educação crítica a partir da apropriação responsável e criativa dos artefatos culturais da nossa época:

“Aparentemente, já não há o que contestar. A incorporação das tecnologias da comunicação digital e dos conteúdos da cultura midiática às relações de ensino formal, que já foi objeto de polêmicas acirradas por parte de intelectuais e profissionais do campo da Educação, se apresenta, hoje, como uma tendência irreversível. Nas salas de aula do ensino fun- damental às dos programas de pós-graduação, nas grandes e pequenas cidades, em escolas públicas e particulares, cada vez mais professores e alunos convivem com monitores de TV, computadores, tablets ou, no mínimo, celulares, todos vinculados à internet.

Sem falar na expansão cada vez mais importante dos programas de ensino a distância, em que a presença física dos professores e o contexto da sala de aula são substituídos pela sua expressão virtual, e o processo pedagógico se dá primordialmente na interação entre aluno e máquina. Tudo indica que, com maior ou menor velocidade, enfrentando maior ou menor resistência, a escola do tradicional “cuspe e giz” vai cedendo lugar a uma escola midiatizada, tida como mais adequada a uma contemporaneidade que autores como Castells e Levy designam como “era da informação” ou “era da informática”.1

Como entender o sentido dessas mudanças? Qual o impacto das tecnologias da comunicação na configuração das relações pedagógicas e dos processos de produção e disseminação de conhecimento? Em que medida elas alteram as concepções de cultura e as hierarquias do saber? Até que ponto a presença das novas tecnologias no interior das instituições de ensino poderão, efetivamente, corrigir a “defasagem da escola em relação ao modelo social de comunicação que foi introduzido pelos meios audiovisuais e pelas ‘novas’ tecnologias e da emergência de novas sensibilidades”, acusada por Jésus-Martin Barbero a partir de pesquisa com jovens latino-americanos? (2008, p. 11).

As respostas a essas perguntas não podem ser buscadas nas características ou propriedades intrínsecas aos recursos tecnológicos. Atribuir uma essência transformadora à tecnologia é adotar uma perspectiva determinista, que desconhece tanto a complexidade das relações implícitas nos processos pedagógicos quanto as suas articulações com a sociedade mais ampla. Tecnologias são artefatos culturais, histórica e socialmente localizados. Como tal, para compreender seu significado e os efeitos que produzem na vida social, é preciso situá-las no universo de códigos, valores e visões de mundo em que estão inseridas, investigando os diferentes modos como são apropriadas nas práticas individuais e coletivas.”

(cont.)

 1.Essas duas expressões estão, sintomaticamente, nos próprios títulos de livros em que estes autores buscam definir as características da contemporaneidade, tendo como foco as tecnologias da comunicação. No caso de Manuel Castells, trata-se da trilogia A era da informação: economia, sociedade e cultura (Paz & Terra, 2005); no de Pierre Lévy, As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática (34 Letras, 1993).

Referência
*”Educar na contemporaneidade: Cultura, tecnologia e educação no cotidiano do professor e do estudante”/ Andréia Miranda Domingues, Magali Fernandes, Margarita Victoria Gomez, Ilana Strozenberg; José de Sousa Miguel Lopes; Albert Roger Hemsi; Marcus Vasconcelos de Castro; Kelly Victor; Luciana da Silva. Paco Editorial, 2013. Coleção A/Z

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2 respostas para Na contramão das respostas prontas

  1. Marisa Soares disse:

    Meu comentário baseia-se a partir da questão: Até que ponto a presença das novas tecnologias no interior das instituições de ensino poderão, efetivamente, corrigir a “defasagem da escola em relação ao modelo social de comunicação que foi introduzido pelos meios audiovisuais e pelas ‘novas’ tecnologias e da emergência de novas sensibilidades”, acusada por Jésus-Martin Barbero a partir de pesquisa com jovens latino-americanos?
    Considerando que um fator que facilita a aprendizagem é a relação professor-aluno, porque ô aluno precisa sentir certa segurança, simpatia para com seu professor para que interaja, como poderia criar vínculos e até temas geradores de diálogos, se o mundo presente dos alunos está baseado no mundo digital? O professor precisa se atualizar desses recursos, para acompanhar os estilos de pensamentos de seus alunos. Podendo até ser uma estratégia de ensino.A emergência de novas sensibilidades é colocar-se no ponto de vista das novas gerações e aproveitar seus aspectos positivos e utilizá-los com a intencionalidade pedagógica.

    Marisa.

  2. .. disse:

    Marisa,
    Eu concordo com você e acredito que promover o pensamentos dos alunos como uma estratégia de ensino-aprendizagem que considera a emergência de novas sensibilidades e a intencionalidade pedagógica é coerente com o pensar e fazer a educação como ação cultural, na perspectiva freiriana. Os artefatos culturais tecnológicos atualizam o diálogo e a comunicação quando existe compreensão destes. E voltamos a falar sobre a necessidade de abrir a ciência à população: https://pedagogiadavirtualidade.wordpress.com/2013/05/22/os-desafios-da-ciencia-como-iniciativa-aberta/

    . abraço,

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