A expressão da imagem na concepção histórica e cultural da América na interpretação de Lezama Lima

Aladim Lopes Gonçalves

Em seus artigos, ensaios e conferências que contribuíram para o livro A expressão Americana, o escritor cubano José Lezama Lima (1910-1976) apresenta uma série de reflexões sobre as identidades nacionais e culturais da colonização da América. Também, mostra suas distintas formas de ocupação em suas concepções colonialistas, imperialistas e dogmáticas, regidas por uma ideologia europeia dominante, e de que forma essa influência hegemônica interferiu na construção dos personagens: hispano-americano, luso-americano e anglo-americano.

Evidentemente que no decorrer desse processo ele ressalta os arranjos, adaptações, mandos e desmandos que fizeram parte do modo que o continente americano se construiu culturalmente e socialmente e analisa os reflexos dessa influência nas esferas econômicas, sociais, políticas e religiosas.

Para traçar um rumo em direção a uma identidade do que é ser americano Lezama Lima se vale de recursos que valorizam o papel da imagem e das mitologias regionais para valorizar a simbologia como um grito de resistência e forma de afirmação da individualidade cultural dos povos originais que aqui estavam antes mesmo do ato de descobrimento.

A partir da miscigenação e interação desses povos com os colonizadores europeus que surgiram os sucessores e herdeiros da América, marcados por conflitos de hereditariedade, mas que participaram efetivamente de assuntos determinantes para a região, englobando desde a exploração geográfica e povoamento do continente até os conflitos revolucionários para a libertação das amarras colonialistas.

Diante dessa percepção Lezama Lima propôs uma visão histórica pelo filtro da imagem, fazendo uso da mitologia em vez do método narrativo e abrindo mão da oralidade. Um modo pessoal de descrever os acontecimentos e as transformações da América pela linguagem imagética e mitológica para expressar essa trajetória histórica no contexto das artes e das manifestações das culturas.

Nesse sentido, ao valorizar a questão da imagem e dos mitos para tratar a questão da identidade americana, fazendo aí uma devida distinção entre América luso-hispânico-americano (católico), América anglo-americana (protestante) e América indígena (naturalista), que Lezama Lima consegue identificar algumas complexidades sociais e também explorar a diversidade cultural desse legado, carregado de costumes, crenças e ritos que compõem e representam cada um dos segmentos e seus valores.

Percebe-se uma boa parte desse entendimento de Lezama Lima sobre a América no fragmento do texto A HISTÓRIA TECIDA PELA IMAGEM, conforme:

Desde já, a noção de “América” para Lezama vai além do referente restritivo nela convencionalizado. Mais ampla que a “América Ibérica” de Henriquez Ureña ou que o “México/América Hispânica” de (Octavio) Paz, ou, ainda que a “América Latina” que, desde Rodó até Carpentier, fora o objeto conceitual, a noção manipulada por Lezama inclui (surpreendentemente) os Estados Unidos. Essa inclusão pode parecer uma heresia, em se tratando de um escritor cubano que escrevia às vésperas da Revolução e num período da vida continental de plena vigência do “latino-americanismo”. Além das tensões políticas que há mais meio século vinham alimentando um justificado sentimento anti-imperialista, o clima ideológico de reivindicação da latinidade – desencadeado pelo Ariel (1900) de Rodó – se afiançava no mito de que os Estados Unidos eram um mundo materialista e pragmático, carente de espiritualidade, de verdadeiras essências humanas e, como tal, antagônico à nossa América. As razões de Lezama vão, porém, à margem dos fatos e das ideologias vigentes. Se bem faz prevalecer os exemplos de expressão latino-americana, tomando os da América do Norte de modo complementar (e em certo modo “latinizando” os Estados Unidos), a articulação conceitual do ensaio sugere que o adjetivo “americana” do título foi intencional, para dispor a ideia de uma totalidade indissociável em dupla acepção. Primeiro, do ponto de vista histórico, resgata o nome original do continente, o da sua fundação; segundo, refere a uma geografia única, uma natureza que anterior à história, a prefigura como unidade espiritual indissociável no Ocidente. (CHIAMPI, p. 19 e 20)

Levando em conta esse entendimento de várias américas dentro de uma única América, especialmente quando estamos falando de América Latina, Lezama Lima faz uma dura oposição as ideias de Friedrich Hegel e sua visão de uma América dominante, considerando os Estados Unidos como um representante do conceito germânico de perfectibilidade para uma sociedade mais evoluída e hegemônica sobre os nativos indígenas, tratados por ele como figuras incrédulas, ingênuas e até como crianças nas mãos dos padres jesuítas.

A orientação da história da América contada pelo olhar imagético e mitológico de Lezama Lima também encontra um contraponto interessante, e que proporciona um bom campo para análise e discussão, na visão do crítico uruguaio Angel Rama em seu livro A Cidade das Letras, que acentua a valorização da palavra letrada sobre os papéis da escrita e da letra, sobrepondo a oralidade na concepção moderna das cidades latino-americanas.

Alheio a todas essas discussões historiográficas e conceituais é possível afirmar que tanto a imagem e a mitologia quanto a letra e a escrita são recursos fundamentais e imprescindíveis para efeitos de registro, ajudando a entender e preservar o espaço da América nas questões de cultura, educação, social, economia, política e religiosa, assim como salientar o seu papel na dimensão global e na identidade dos seus povos.

Referências

CHIAMPI, Irlemar. A história tecida pela imagem. In: Lima, José Lezama. A expressão americana. Tradução, introdução e notas de Irlemar Chiampi. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 15-41.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da História. Tradução Maria Rodrigues e Hans Harden. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

LIMA, José Lezama. A expressão americana. Tradução Irlemar Chiampi. São Paulo: Brasiliense, 1988.

RAMA, Angel. A cidade das letras. Tradução Emir Sader. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Esse post foi publicado em Pensamento Pedagógico Latino-Americano. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s