Da diversidade subcontinental à utopia bolivariana

Denise Henrique Mafra

‘Devemos ter cuidado com os olhos de quem lê’ (Rubem Alves, 2013). Respeitá-los e apresentar algo prazeroso para leitura. Minha intenção aqui é chegar próximo disso, pois os encontros proporcionados ao longo desses últimos meses me foram de um crescimento intenso e fecundo. Tanto por conhecer outras pessoas, outros olhares, quanto pelas lentes novas que me foram oferecidas para reforçar minha latinidade permitindo-a que brotasse e vingasse como cultura, sonho e fazer.

Em cada leitura proposta, busquei a compreensão do que é, o que pode ser, o que virá a ser essa América ainda tão desconhecida por mim, ao mesmo tempo em que está em minhas raízes.

Em “O sonho do servo” (José Maria Arguedas) vislumbrei uma altivez muito latina ao me deparar com o desfecho do texto. Lembrei-me de João Grilo de Suassuna (1955), Macunaíma de Mário de Andrade (1928) e outros tantos que poderiam ser aqui citados.

O que me provocou a lembrança dos personagens acima foi a tentativa da compreensão dos diversos tipo que, provavelmente, surgiram em meio a toda opressão, imposta de ponta a ponta nesse nosso continente que levou, a esses que aqui nasceram, a criarem formas de resistência, produzindo alternativas de libertação. Pois como afirmou Paulo Freire:

 A violência dos opressores que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. (FREIRE, 1987, p. 30)

A América Latina vem percorrendo um longo caminho na história do mundo moderno. O movimento intelectual que se desenvolveu ao longo dos séculos fortaleceu, em certa medida, uma identidade do povo latino-americano.

Em “América Latina: Longa Viagem para si mesma”, Leopoldo Zea afirma: Nosso caso, diria o Libertador, Simon Bolívar (1783- 1830), é extraordinário e complexo: ”não somos europeus, não somos índios, mas sim uma espécie intermediária entre os aborígenes e os espanhóis”. Aqui está o extraordinário e o complexo da América Latina e de sua cultura. (ZEA, 1982, p.19)

 Nessa perspectiva, as leituras desenvolvidas na disciplina “Seminário Avançado – Pensamento pedagógico latino-americano: a experiência da educação popular e da investigação – ação” contribuíram para a discussão de elementos importantes para nossa análise e elaboração de conceitos que auxiliem a compreensão da atual realidade social, política e cultural de nosso continente. Elas nos permitiram identificar a essência dos diversos processos e tendências, seus limites e possibilidades. Entre esses elementos podem ser destacados: o conceito de latinidade em constante construção, pensamento pedagógico latino-americano, educação popular e a investigação-ação.

Tais leituras demonstraram que o pensamento latino-americano ao longo dos séculos que se volta cada vez mais para o esforço de resgatar as especificidades do processo histórico regional e os desafios enfrentados para a produção e disseminação do conhecimento, primeiro, por parte dos dominadores e, em segundo, ainda hoje, para o mundo.

Esse fortalecimento de minha consciência latino-americana me fez sentir mergulhada em uma realidade até então por mim desconhecida de tantas produções e autores que me revelaram outras tantas leituras enriquecedoras.

Não posso deixar de citar aqui o trabalho “Razões Oprimidas: introdução a uma nova geopolítica do conhecimento” (2008), do Professor José Eustáquio Romão, que a partir de uma releitura, explicitou, em mim, o significado de outra razão, outros saberes, enfim uma nova geopolítica do saber.

Nessa perspectiva, as sugestões de leitura foram me auxiliando a confirmar que “[…] cada vez mais, surgem, de diversas partes do mundo subalternizado, vozes que ressoam, oportuna e consistentemente, contra as epistemologias hegemônicas (ROMÃO, 2008, p. 65).

Nossos povos emergiram e se afirmaram dentro de um processo civilizatório profundamente marcado por uma visão eurocêntrica. Após o domínio do império espanhol e português, seguimos sob o poder dos ingleses e, a partir do pós-guerra, com a hegemonia estadunidense, sobrepondo esquemas de dominação político-cultural e de exploração econômica singulares e, ao mesmo tempo, repetidos.

As leituras sobre o pensamento cultural latino-americano, ao mesmo tempo em que possibilitam o desenvolvimento de um repertório autêntico de denuncia e crítica às múltiplas formas de dominação, trazem elementos para a construção de caminhos alternativos de emancipação. Diferentemente dos pensamentos hegemônicos, a identidade latino-americana se caracteriza por visões polissêmicas que, preservando elementos comuns, expressam a riqueza de uma luta histórica multicultural deste continente.

Desde o século XX, a latino-américa, nas diversas regiões, vem construindo suas identidades que, substantivamente, são as suas lutas de libertação. A busca por outros modelos políticos e econômicos, as resistências às tiranias, as criações artísticas, o retorno a cultura pré-colombiana, as tentativas de diálogo entre as nações, a constituição de uma unidade geopolítica são expressões não apenas do desenvolvimento político-cultural desses povos, mas, sobretudo, a construção de um projeto utópico novo que atenda às necessidades e aos sonhos dessa parte do continente que, corretamente para alguns e imprecisamente para outros, convencionamos a chamar de América Latina, nossa Pacha Mamma.

 Referências
 ALVES, Rubem. Lições do velho professor. Campinas, SP: Papirus, 2013.
ANDRADE, Mário. Macunaíma. O herói sem nenhum caráter. São Paulo : Martins, 1928.
ARGUEDAS, José Maria. O sonho do servo in Os Rios Profundos. S, Rio de Janeiro, Paz e Terra.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
ROMAO, José Eustáquio. Razões Oprimidas: introdução a uma nova geopolítica do conhecimento in TORRES (et al.); São Paulo; Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2008. – Série Unifreire.
ZEA, Leopoldo. América Latina – longa viagem para si mesma. Cadernos da América Latina. Universidade Federal de S. Carlos e UNAM: México, 1982.

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