Olhares (outros muitos) ou sobre nosso tempo-espaço de conhecer

Eliane Dolce Guerriero

Paulo Freire dizia que a história é descontinuidade de processos, e não linear. Mas não foi isso que aprendi no então ginásio, nem no colegial. E também não aprendi sobre a colonização da América Latina. Aliás, a largueza destas terras nem parecia existir antes da chegada dos europeus. Sabíamos o “antes e depois” da Europa. O antes se resumia a índios, que nos foram apresentados como quase desumanos, e também como se o Novo Continente fosse uma página em branco – exatamente a visão dos que aqui chegaram para dominar, impor língua, religião, costumes, tendo sonhado, planejado e executado a Cidade Letrada (RAMA, 1998).

Nossos ensinamentos se limitavam a dizer que a colonização do Brasil (porque os demais países da América Latina eram ignorados) foi na época tal, realizada pelos portugueses que brigavam com os espanhóis (e nem nos perguntávamos o que estes espanhóis estavam fazendo aqui…). Sentíamos que éramos desprendidos de toda América Latina – e isso não parecia ruim.

O modelo neoliberal, incorporado pela educação para atender as necessidades do mercado eliminou conteúdos e práticas que tinham a tendência a estimular nos estudantes a imaginação, a memória, a criatividade. (…)  A reforma impôs como eixos a supressão da capacidade de localização histórica e geográfica, assim como a eliminação do reconhecimento das peculiaridades culturais e da identidade de nossos povos, a partir da escola. Isso, obviamente, no contexto do estabelecimento de um sistema de controle-subordinação que garantisse a repetição de lemas, a execução de ordens e a identificação dos estudantes com a busca da conquista individual, a aceitação das regras do mercado, o conformismo e o desmemoriamento (ELÍZAGA, 2011, p. 24).

O fundamento da colonização que Zea denomina justaposição (1982) presume que haja superior e inferior. Assim foi a formação que recebi, e que também observo nas práticas educacionais ditas conservadoras. Para estas, a oralidade não serve, é necessário saber ler. A imposição da escrita como superior à oralidade cumpre com a função de dominação.

Una ciudad, previamente a su aparición en la realidad, debía existir en una representación simbólica que obviamente sólo podían asegurar los signos: las palabras (…) Esta palabra escrita viviría em América Latina como la única valedera, en oposición a la palabra hablada que pertenecía al reino de ló inseguro y lo precario (RAMA, 1998, p. 21-2).

A palavra escrita, assim, é eterna, rígida e livre de vicissitudes da história (e, portanto, da natureza humana). A palavra falada é vulnerável, mutante, indefinida.

Esta relação se aplica também à dicotomia mente-corpo, enfrentada diariamente por quem anseia que os saberes podem (e devem) ser vivenciados. O corpo é sempre presente àqueles que o são, não que o têm. Sou corpo, não tenho corpo. Tudo sou eu. Já presenciei muitas conversas de professores e gestores cuja tônica era a facilidade de se trabalhar “o corpo”. Pois bem: como professora de Educação Física, digo que é verdade. Mas não uma facilidade no sentido de falta de esforço, mas de entendimento do processo de ensino.

As manifestações da Cultura de Movimento são carregadas de intenção e significado (e portanto, não são ações mecânicas, nem semelhantes em qualquer tempo e espaço).

De maneira dicotômica, então, poder-se-ia dizer que a palavra escrita é pensada; a palavra falada é vivida. Mas a educação problematizadora supera a barreira dos binarismos, supera os muros rígidos impostos entre teoria e prática, entre corpo e mente, entre homem e mulher.

Como mais um instrumento de dominação, a imposição da cultura do colonizador veio a ser o processo de transculturação, qual seja: a desculturação, a incorporação de uma cultura externa imposta e a neoculturação; Assume-se, pois, a miscigenação como riqueza da América Latina. O signo cultural é a mestiçagem (LIMA, 1998).

O processo que me encontro de finalmente conocer a América Latina tem sido encantador. Entre filmes e imagens, poesias e sabores, literatura, arte, sentimentos e sons (músicas e vozes), o processo não se acaba. Nós somos inacabados. “Presa no espaço, solta no ar. Nem andando, nem voando, só sambando” (MOREIRA; GALVÃO, 1974) percorro o território latino-americano, buscando a identidade, e consolidando o sentimento de pertença.

Referências

ELÍZAGA, Raquel Sosa. Pensar com a própria cabeça – Educação e pensamento crítico na América Latina. Revista Fórum (Cadernos do Pensamento Crítico Latino-Americano – Flacso Brasil). Rio de Janeiro, n. 20, p. 23-25, outubro 2011.

LIMA, José Lezama. Mitos e cansaço clássico. In: A expressão americana. Trad. Irlemar Chiampi. São Paulo: Brasiliense, 1998.

MOREIRA, Morais; GALVÃO, Luís. Ladeira da praça. In Novos Baianos. Linguagem do Alunte, 1974.

RAMA, Angel. La ciudad letrada. Montevideo: Arca, 1998.

ZEA, Leopoldo. América Latina – longa viagem para si mesma. Cadernos da América Latina. Universidade Federal de S. Carlos e UNAM: México, 1982.

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Uma resposta para Olhares (outros muitos) ou sobre nosso tempo-espaço de conhecer

  1. Dishes disse:

    Gostei da ideia de ter a experiência de “uma longa viagem para nós mesmos”
    abç

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