Os desafios da ciência como iniciativa aberta

Marisa Soares

É possível considerar que os desafios da pesquisa mediada pelos recursos tecnológicos sejam sobrepujados pelos seus benefícios e contribuições.  Este pensamento pode ser compreendido a partir da leitura do texto: Science as an open enterprise: open data for open Science, Royal Society (2012), uma vez que a pesquisa aberta está no centro do empreendimento científico. A publicação aberta das teorias científicas – e dos dados experimentais e observacionais em que se baseiam – permite que os demais pesquisadores possam identificar seus possíveis erros, para apoiar, rejeitar ou refinar teorias e reutilizar dados para o melhor entendimento e conhecimento, constituindo-se desta maneira, como uma poderosa capacidade da ciência para sua autocorreção, assim como para seu desenvolvimento, constituindo a pesquisa como um trabalho em equipe de pesquisadores nacionais e internacionais que visam sua contribuição social.

Um dos desafios situa-se no fato de que, a centralidade histórica do textos impressos nos meios de comunicação tem diminuído com a chegada das tecnologias digitais. Foi na Inglaterra do começo do século XIII que se criaram as mais favoráveis condições para a emergência da comunicação impressa, porque a censura e o controle político da imprensa eram menos rígidos que em outras partes da Europa, e periódicos e jornais proliferavam. A Enciclopédia Britânica, por exemplo, foi publicada desde 1768 até 2010 em versão impressa, quando começa a ser publicada em formato digital. Ao mesmo tempo, os cafés prosperavam; em torno da primeira década do século XVIII, estima-se que havia três mil cafés apenas em Londres, cada um com um núcleo de clientes regulares. “Muitos dos novos periódicos se interligavam estreitamente com a vida dos cafés, uma vez que eram lidos e debatidos por indivíduos que lá se juntavam para discutir as questões do dia.” (THOMPSON, 1998, p.68).

Esta atual mudança tecnológica da atividade de pesquisa foi desencadeada pela criação das primeiras revistas científicas. Henry Oldenburg (1619-1677) foi um teólogo alemão que se tornou o primeiro secretário da Royal Society. Ele se correspondia com cientistas de renome em toda a Europa, acreditando que, em vez de esperar por livros inteiros a serem publicados, as cartas eram muito mais adequadas para a comunicação rápida de fatos ou novas descobertas. Desta forma, Oldenburg convidou as pessoas a escreverem para ele – mesmo leigos, que não estavam envolvidos com ciência, mas que tenham descoberto algum item de conhecimento. Destas cartas a ideia de imprimir trabalhos científicos ou artigos em uma revista científica nasceu, quando Oldenburg criou a Philosophical Transactions, da Royal Society, em 1665. Outro aspecto importante a se considerar é início do processo de revisão dos pares das submissões, porque Oldenburg pediu que três bolsistas da Sociedade, os quais tinham mais conhecimento dos assuntos em questão do que ele, que comentassem sobre os pedidos antes de que tomasse a decisão final sobre a publicação.

Em nossos dias, milhares de “pesquisadores encontram-se” por meio dos meios de comunicação em grande escala, desde a coleta de dados e a análise dos materiais pesquisados, criando novos desafios para a tradicional autonomia de pesquisadores individuais. Porque atualmente, a Internet tem oferecido e oportunizado um canal que interliga redes de cientistas profissionais, estudante, ou toda pessoa que queira investigar por meio da pesquisa as atuais colaborações e comunicações, que se constituem como os novos modos de abrir caminho para uma revolução científica

De acordo com os programas nacionais de pesquisa de alguns países: Exercício de Avaliação de Pesquisa (Research Assessment Exercise – RAE) [a próxima rodada deve ser chamada de Estrutura de Excelência em Pesquisa (Research Excellence Framework – REF)] no Reino Unido, o programa de Excelência em Pesquisa (Excellence for Research – ERA) na Austrália, e Exzellenzinitiative des Bundes na Alemanha.  Esses programas nacionais e internacionais afetam o modo como a pesquisa está sendo realizada hoje e certamente o farão no futuro. (JOHNSON, 2012). Este estudo demonstra que além da ampla possibilidade das ferramentas tecnológicas e do avanço da abertura da comunicação entre as pesquisas, ainda a competitividade, o fator financiamento e as áreas de aplicação das pesquisas são fortemente determinantes.

A busca pelo equilíbrio da abertura da ciência, continua nos debates sobre se é ético patentear pesquisas, as quais muitos veem como o patrimônio comum da humanidade. Pode parecer que o limite natural desta abertura, deve coincidir com a fronteira entre a investigação com financiamento público e privado, quando empresas privadas mantêm a confidencialidade dos seus dados e investigação, com financiamento público para a abertura de seus dados.

Referências

JOHNSON, Alan M. Um guia para pesquisadores em início de carreira. 2a Ed. Elsevier: 2012. Radarweg 29, 1043 NX, Amsterdam, the Netherlands. E-mail: alanjohnson@rmsinternational.com.au

THOMPSON B. John.  A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

ROYAL Society Science Policy Centre, Science as an open enterprise. London: The Royal Society, 2012.

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15 respostas para Os desafios da ciência como iniciativa aberta

  1. Margarita disse:

    Olá, Marisa,
    O tema que você nos apresentou no encontro de quarta-feira gerou um debate interessante, muito atual e polêmico. Pensar a pesquisa desenvolvida no contexto da cultura digital nos leva a analisar os desafios e as oportunidades trazidas pelas tecnologias, que permitem novas formas de reunir, organizar, armazenar, transmitir e compartilhar dados e informações sobre pesquisas científicas.
    Também acredito que defender a abertura da ciência e o livre acesso aos artigos científicos e aos dados de pesquisas pode ser numa utopia quando conhecemos os interesses e as tensões geradas entre o publico-privado-mercantil, os custos desses investimentos, o pequeno número de publicações qualificadas no pais na área da educação e a reduzida porcentagem de pessoas fazendo pesquisa na universidade. Além disso, a permanência dos estudantes na pesquisa e a manutenção desses dados e metadados necessita certas politicas públicas, e também de profissionais que confiram confiança.
    Se a produção cientifica fosse aberta na rede só para preencher o currículo, praticar o “Salami Science” e/ou manter o poder concentrado nas empresas de tecnologia isso não bastaria, os dados deveriam estar disponíveis na internet, mas com certos cuidados que os tornem acessíveis, inteligíveis e reutilizáveis e pertinentes.
    Como você destaca, esse movimento implica considerações éticas, politico-pedagógicas e econômicas, pois assim como foi uma política manter a ciência fechada, quase mágica, por muito tempo, hoje abrir a ciência talvez implique no uso do software livre, do creative commons e BOI- Budapest Open Access Initiative, e a cultura livre de open source, entre outros… Você pode ver que até na Wikipedia já se faz referencia á ciência aberta e há necessidade de pensar novas formas de avaliação por pares – Peerage of Science, o arXiv e a PLoS- que envolve mobilizar agencias de fomento, editoras de periódicos científicos, entre outras questões.
    Isto me provoca ainda pensar neste movimento na área da educação e mais especificamente no Brasil e na América Latina.
    Como apropriar-nos dos dispositivos tecnológicos da rede para pesquisas em educação que envolvam mudanças sociais e educacionais em prol da cidadania?

  2. Margarita disse:

    é oportuno acrescentar ao comentário anterior que o Brasil é um dos países da América Latina com mais acesso aberto, exemplo disso: Plataforma Lattes, Scielo, Inep, IBGE, Bireme, entre outros.

  3. Sebastião Monteiro disse:

    parabéns Marisa e Professora Margarita, graças ao acesso a portais, periódicos, e tantas coisas que a ciência aberta proporciona para os pesquisadores, alunos, professores e a sociedade em geral, eu venho de uma região em que temos dificuldade de acesso, e sei o valor dessas mídias na educação, e tenho aprendido tanto com isso, estou falando destes três meses que estou em São Paulo, tenho recebido orientações para utilizar melhor esses recursos
    Parabéns mesmo por este blog

  4. Sebastião Monteiro disse:

    quero publicar um artigo para contribuir, espero orientações para enviar, não sei como fazer

    • marvi2012 disse:

      Sebastião, O procedimento está certinho, é escrever o seu comentário e logo abaixo, escrever seu e-mail e nome, não é necessário escrever o site. Em seguida, clicar em publicar comentário, que ficará na fila para que seja aprovado pelo moderador. Para postar um texto, deve clicar no login para ingressar usando: seu login e senha – “No menu lateral esquerdo “Posts”, clique em “Adicionar novo”, conforme indicado no cercado azul. Depois é só proceder a escrever o título e digite e edite o texto. Por fim clique no botão “Publicar” que está indicado pela seta na imagem acima”( http://www.ferramentasblog.com/2009/08/como-publicar-um-post-no-wordpress.html)

  5. Andreza Gessi Trova disse:

    Olá tudo bem, Estou divulgando para as minhas turmas de primeiro semestre do Curso de Pedagogia, pois eles estão trabalhando com Blog
    Disciplina Tecnologias Aplicadas à Educação
    Abraços, Andreza

    • marvi2012 disse:

      Ótimo Andreza, esperamos contribuir com o trabalho de vocês e aguardamos os comentários para os textos aqui publicados. O nosso livro “Educar na contemporaneidade: cultura, tecnologia e educação no cotidiano do professor e do estudante” (Pedagogia de A a Z; Vol 9 ) deve ser lançado em breve pela Paco Editora e é continuidade desta temática. Mandaremos noticias, Abraços,

  6. Marvi disse:

    LEY QUE REGULA EL REPOSITORIO NACIONAL DIGITAL DE CIENCIA, TECNOLOGÍA E INNOVACIÓN DE ACCESO ABIERTO (PERU) http://www2.congreso.gob.pe/sicr/comisiones/2012/com2012ciencia.nsf/0/cb7c863ded37261e05257b3b007c029c/$FILE/1188_Sustitutoria_27MAR2013.pdf

  7. Maria do Carmo disse:

    Não podemos deixar de olhar a Internet como mais um ferramenta para auxiliar-nos nas questões didáticas, porém devemos ter cautela. Precisamos saber identificar sites confiáveis e usá-las como fonte de informação. Analisar os trabalhos sempre com o olhar crítico. É importante comentar que em meio a tantas possibilidades podemos encontrar um blog que trata de assuntos tão pertinente aos nossos estudos, agradeço.
    Parabéns

  8. Denys Munhoz Marsiglia disse:

    Olá alunos, alunas, professores e professoras,
    Um dos olhares que julgo importante socializar e que me acompanham em minha trajetória acadêmica é o da subjetividade.
    Ao participar deste blog, percebo claramente este olhar, por meio dos anseios, dos medos e até da necessidade da alfabetização digital que se faz necessária à educação em rede.
    A pedagogia da virtualidade fomenta tudo aquilo que é potencial e, nesse processo, leva o sujeito a perceber sua aprendizagem de forma coletiva e não mais solitária.
    Nesse processo, o sujeito se reconstrói a medida em que avança, vencendo seus medos e familiarizando-se com ciberlugares como este que vos falo.
    Acredito, veementemente neste espaço de socialização do saber.
    Abraços,

    • Marvi disse:

      Olá Denys, acredito como você que a subjetividade se faz e refaz também no espaço virtual/real, que hoje já é parte da nossa vida. O face-a-face ‘virtual’, o encontro com o outro que está detrás da tela, mas que não pode ocultar-se, nos traz novos desafios para pensar o sujeito pedagógico…aqui também pode vir a existir orgulho, preconceito e discriminação…

  9. Patricia Montanholi Kassab disse:

    Caros colegas,

    Indubitavelmente, o tema em questão é de extrema relevância e merece uma releitura.
    Acredito, que as tecnologias da educação e da comunicação facilitam a busca, o diálogo intersubjetivo, a troca de informações etc; entretanto, há de se considerar, que “o excesso de informações” sem uma orientação adequada das fontes, ou quanto ao uso dos próprios “posts”, podem gerar uma interpretação equivocada de leitura. É oque acontece no “facebook, twitter, blogs, fotologs etc”. Se não há um objetivo bem definido, bem delimitado, e as fontes não são fidedignas, acabamos por correr o risco das falsas assertivas, o que acaba por não contribuir com a pesquisa científica, tampouco com a sociedade. É o que Morin chama de “ecologia das ações” – as interpretações fogem às nossas intenções.
    Penso que como qualquer ferramenta, peguemos uma faca por exemplo, pode servir tanto para fins que contribuam como para fins que denigram algo ou alguém. Vejam e observem sobre os ” posts” via facebook sobre as manifestações. Há uma leitura consciente a respeito desse assunto, ou as pessoas estão se lançando às ruas sem sequer ao menos conhecer o motivos ou os motivos pelos quais estão lutando e se expondo?
    Outro problema a ser colocado aqui é o excesso de cobrança de trabalhos, artigos etc nos centros acadêmicos exigidos em massa em um curto espaço de tempo, por conta da CAPES e outras agências de fomento. Pesquisadores sentem-se “tentados” a copiar ideias alheias, como diz Schopenhauer, devido à leitura em que o outro pensa por nós, trazendo como consequência o empilhamento de informações, o esgotamento de ideias e as pesquisas tornam-se em apenas compilações de textos já escritos, sem profundidade, sem um compromisso real com a sociedade.
    Por outro lado, também penso que os cafés, os pubs e outros lugares de encontro que aparentemente parecem lugares somente de entretenimento e de trocas de “futilidades”, são ao contrário, espaços de construção de conhecimento. Quando conversamos com os amigos, assistimos a uma peça de teatro, a um filme, nos deleitamos com o amor, com o pôr do sol, passamos por uma experiência estética (aisthanesthai), pois os nossos cinco sentidos, segundo Merleau Pounty, se aliam para a apreensão do conhecimento. Portanto, aprendemos, apreendemos e nos apropriamos de um determinado conhecimento, pois nos abrimos a ele. Isso é oque Domenico de Masi chama de ócio criativo. Não é separar o mundo prosaico do poético, até porque são partes que se relacionam e não se dissociam, mas, libertar-se da ideia de que trabalho é algo penoso, árduo , que faz suar. Saber como articular o trabalho, o estudo e o lazer de uma forma prazerosa e com leveza é o segredo de se produzir com vontade e compromisso. Daí, as tecnologias da informação e da comunicação passam a serem úteis na vida do pesquisador, pois este, não têm medo de “navegar”, de questionar e achar que a busca excessiva pelas informações tornar-se-ão um caldeirão de ideias esgotadas.

    Um abraço,
    Att.,
    Patrícia Montanholi Kassab – doutoranda em educação.

    • marvi2012 disse:

      Patricia, muito pertinente seu comentário, indubitavelmente a experiência estética é fundamental na nossa vida, especialmente nos momentos que se pretendem educacionais. É importante apostar numa cabeça bem feita e não numa cabeça bem cheia para que a isca da curiosidade epistemológica acenda. Um abraço,

  10. Cida disse:

    Caros colegas e professores,
    Achei muito interessante o texto, assim como de extrema importância a discussão da temática: a abertura da ciência. Tornar a ciência, ou as suas descobertas, como algo tangível e de ampla divulgação por meios além dos acadêmicos permitem a evolução do seu entendimento e como citado no texto acima “uma poderosa capacidade da ciência para sua autocorreção”. A possibilidade de avanços são inumeráveis, contudo, devemos tomar determinadas precauções, como por exemplo, o excesso de informações acabam permitindo diferentes conclusões de um mesmo tema, e centenas de outras aplicações que escapam do que seria coerente.
    Mantendo bons critérios de avaliação e principalmente, o bom senso, a evolução de resultados em prol à humanidade poderão ser infinitos e efetivos em várias setores.

    Abraços e boas férias!

    Cida

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