Polegarzinha – Uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber

Alessandra Gaidargi

Elas não pensam como os pais, não entendem como as gerações anteriores e sintetizam de uma forma completamente nova para a academia. A cultura dos antepassados que se sustentava na visão greco-latina, no universo judaico-cristão entre outros, fica longe da deles, formatada pela mídia e a publicidade difundida pelos adultos… O que as(os) jovens de hoje querem da sua escola?

Em “Polegarzinha”, o filósofo francês Michel Serres propõe uma reflexão acerca das novas formas de comunicação da jovem e da escola no mundo contemporâneo. Polegarzinha, no feminino, faz referência à jovem que coloca em questão a reviravolta sexual e a mulher no cenário cultural. Polegarzinhos, no contexto plural, se refere aos jovens que digitam mensagens em seus celulares com os polegares, que se intercomunicam o tempo todo apesar das distâncias físicas, e que têm acesso a um mundo – literalmente – de saberes.

O texto de Serres, extraído de um discurso feito na Academia Francesa em 2011, inicia com a frase: “Antes de ensinar o que quer que seja a alguém, é preciso, no mínimo, conhecer esse alguém”. Esta, talvez a grande verdade da educação, é uma máxima que todos conhecemos, mas muitas vezes deixamos de lado. Continuamos exercendo modelos de educação para os jovens que pressupõe uma relação de emissão e recepção de conhecimento, ignorando o fato de que estes jovens produzem conhecimento o tempo todo, independentemente do crivo de quaisquer adultos. Serres afirma ainda que o jovem de hoje “não têm mais o mesmo corpo nem o mesmo comportamento, e adulto nenhum soube inspirar-lhes uma moral adequada” (p.15). Com isto traz a discussão de que, talvez, estejamos em busca de incutir no jovem valores morais com os quais nós mesmos já não compactuamos, mas que são socialmente impostos.

Em todo o texto, encontramos alertas para o quanto a educação está se distanciando do mundo dos jovens. Mundo real este que é também virtual, porque o jovem tomou o espaço virtual como público, e para ele as duas dimensões se entrelaçam a todo tempo. As relações que já não se faziam possíveis no real migraram para o espaço conectado, e cresceram em volume de forma avassaladora, sendo prova disso a força de atração do Facebook, quase equivalente à população mundial. Com estas interações este jovem adquiriu, também, novas habilidades cognitivas, que seus professores nem sempre acompanham.

Fica uma pergunta: O que faremos para trazer de volta à escola este jovem que já não se identifica com ela, e que tem mais a contribuir do que a receber pronto da educação? Para nós brasileiros esta pergunta deveria ser feita diariamente, considerando que as taxas de abandono escolar entre os jovens crescem a cada dia, entretanto insistimos em alicerçar nosso Ensino Médio em uma legislação que data do século passado.

Pensar os jovens de hoje implica compreender esse uso dos polegares que mobilizam outros neurônios, pensar nas formas de se comunicar dos jovens que desenvolveram habilidades cognitivas novas mas nunca viram um bezerro, um porco, uma ninhada…. Esses jovens não tem o mesmo contato que tínhamos com o ambiente, mas lida com perfeição com as redes, com o difuso da oralidade, na busca da informação. Para eles o ensino proposto não faz sentido, nem a pedagogia da Grécia antiga, nem mesmo a de Gutenberg. Eles trazem à escola o novo, e demandam uma nova pedagogia, uma pedagogia da virtualidade!

SERRES, Michel. Polegarzinha – Uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

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2 respostas para Polegarzinha – Uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber

  1. Vero disse:

    Alessandra, é evidente que estamos diante do que Serres chama de “hominisciencia”, ou seja, de uma nova humanidade está se gestando. As mudancas sempre nos trazem esperanças…obrigada pela reflexão.

  2. Adriana Silva disse:

    Cara Alessandra, parabéns pela resenha muito bem elaborada! Gostaria de saber se você poderia disponibilizar o livro Polegarzinha em meio digital. Ele está esgotado no fornecedor e tenho um trabalho para entregar até o dia 31/07 sobre o livro… é desesperador… se souber como posso adquiri-lo seria de grande ajuda. Agradeço a compreensão e disponibilidade.

    Abraços,

    Adriana Silva.

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