Corpo consciente: Uma experiência com linguagens na educação infantil?

Rizoma e educaçãoCintia S. Sato; Irecê A. M. Fernandes; Leticia S. Sousa; Mariana S. Souza – Alunas da turma de sábado.

Desde os primeiros momentos da vida a criança tem seu corpo como o instrumento mais rico no que se refere à promoção de sensibilidades e atividades. É com esse instrumento que fará a exploração do mundo ao seu redor, que aprenderá seus limites e potencialidades. Com ele que irá manifestar seus desejos e necessidades.

Dessa maneira, ter consciência do corpo para usá-lo em todo seu potencial se faz necessário para que consiga resultados qualitativamente maiores em seu processo de desenvolvimento. Segundo Gonçalves “… a consciência é o ser humano, com tudo o que pode torna disponível para se mover no mundo, para pensar e se relacionar com os outros…” (2013, p. 2)

Entendemos o corpo consciente nem como puro objeto, nem como simples sujeito, senão como a intersubjetividade na relação com a realidade das Experiências e  da expressividade com Linguagens Artísticas.

Esse eixo temático pertencente às Orientações Curriculares: Expectativas de aprendizagens e orientações didáticas para a Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, referencial orientador para as Unidades de Educação Infantil da rede municipal da cidade na elaboração de seus projetos pedagógicos e planos de ensino.

Mas, o que é o corpo consciente? Quando se fala em relação a corpo consciente e os aspectos relacionados a este conceito nos remetemos ao referencial proposto por Paulo Freire em suas obras e que serve de subsídio para reflexões e produções sobre o assunto.

Paulo Freire escreveu sobre o assunto em vários momentos e segundo Gonçalves (2012) o mesmo formaliza sua ideia de corpo consciente pela primeira vez em 1968 ao escrever Pedagogia do Oprimido, mas de acordo com esse mesmo autor, apenas em 1985 com o livro Por uma Pedagogia da Pergunta que Paulo Freire fez uso dessa ideia para discorrer sobre.

Segundo Freire:

O corpo humano, velho ou moço, gordo ou magro, não importa de que cor, é o corpo consciente, que olha as estrelas, é o corpo que escreve, é o corpo que fala, é o corpo que luta, é o corpo que ama, que odeia, é o corpo que sofre, é o corpo que morre, é o corpo que vive! (FREIRE, 1985, p.28).

Para ambos os autores o corpo não pode ser encarado apenas em suas dimensões físicas, orgânicas e fisiológicas, o corpo humano é o Corpo Consciente e esse é o sujeito, aquele que atua, pensa, vive, participa, interage. Consciente por contemplar todas as suas dimensões, suas características internas, externas e seu lugar no mundo.

Assim sendo, refletir sobre corpos conscientes não se trata de refletir sobre o “que” se trata e sim sobre “quem”. Uma vez que:

Admitir a existência de corpos conscientes implica o reconhecimento dos seres humanos enquanto expressões plurais de vida, com diferentes níveis de conhecimento. Implica respeito às sensibilidades e estratégias de inteligência próprias dos grupos populares, quando se trata de recriar um mundo mais igualitário. (FREIRE, 1985, p.29 in GONÇALVES, 2013).

O corpo consciente não é um padrão ou forma de ser, é justamente o inverso. É assumir a existência da diferença entre as pessoas, das particularidades que formam o subjetivo, o sujeito.

O que acho fantástico nisso tudo é que meu corpo consciente está sendo porque faço coisas, porque atuo, porque penso. A importância do corpo é indiscutível, o corpo move-se, age, rememoriza a luta de sua libertação, o corpo afinal deseja, aponta, anuncia, protesta, se curva, se ergue, desenha e refaz o mundo. Nenhum de nós, nem tu, estamos aqui dizendo que a transformação se faz através de um corpo individual. Não porque o corpo também se constrói socialmente. Mas acontece que ele tem uma importância enorme… (GONÇALVES, 2013, p.8).

O corpo consciente é aquele que se encontra em movimento. É o que se posiciona, que busca e que contempla a ideia da individualidade do ser humano com base numa construção coletiva. Uma individualidade que se manifesta ao se rejeitar o individualismo.

A expressividade do corpo consciente por meio das linguagens artísticas é sempre desejável em toda criança, ou seja que se aproprie de diversas linguagens que compõem as manifestações artísticas e trabalham diferentes formas de manifestação humana. Tal é o interesse que a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, ao elaborar as Orientações Curriculares para a Educação Infantil, elaborou um eixo temático que, além de justificar a promoção dessas aprendizagens, orientasse os programas de ensino, elencando ainda expectativas em cada linguagem para cada faixa etária.

É importante destacar que o eixo das Expressividades em Linguagens Artísticas encontram-se presentes nas Orientações Curriculares da Rede Municipal de São Paulo, nos volumes de todas as modalidades de ensino, no entanto a presença nesse material destinado a Educação Infantil marca a valorização da promoção dessas aprendizagens desde os primeiros anos de vida da criança.

… As linguagens artísticas apoiam as crianças na ampliação de sua sensibilidade e capacidade de lidar com sons, ritmos, melodias, formas, cores, imagens, gestos, falas, e com obras elaboradas por artistas e por elas mesmas, que emocionam e constituem o humano…(SÂO PAULO, 2007, p.116).

As experiências com as linguagens artísticas proporcionam às crianças uma ampliação de possibilidades ao se expressarem. Permitem que pela apropriação de novas técnicas elas estreitem relações com o mundo, com os parceiros e parceiras e consigo mesmo.

Nessa perspectiva as aprendizagens promovidas a partir da expressividade das linguagens artísticas permitem a vivência do corpo consciente, pois na medida em que favorece o desenvolvimento do indivíduo proporciona a construção do corpo consciente.

Isso se reforça ao considerar a Pedagogia de Loris Malaguzzi aplicada na Reggio Emilia, na Ítalia, e marco na história da educação infantil como referência de trabalho desenvolvido,  que se baseava na implantação de ateliês de arte nas unidades de educação infantil, com as crianças tendo acesso a espaço em diversos momentos de suas rotinas.

Consideramos que o trabalho, com tudo que envolve linguagens artísticas, permite construir e desconstruir saberes, identidades, concepções, etc. E dessa riqueza de experiências é que o torna um excelente meio para se proporcionar às crianças o conhecer e construir seu corpo consciente ludicamente e desde os primeiros anos de vida.

Evidentemente que se abrem novos questionamentos, que não será um conhecer teórico ou conceitual, será exatamente o proporcionar de uma vivência uma vez que o próprio conceito de corpo consciente implica em algo dinâmico e vivo e não em roteiros ou fórmulas.

A criança, na perspectiva de sujeito de suas próprias experiências, proporcionaria um novo olhar sobre o corpo nas escolas desde o começo da sua vida cada vez mais tecnificada.   Que ocorre hoje com o corpo da criança que fica sentada na frente da TV ou no computador….?

Referências

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 10a edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
GANDINI, Lella (Org.). O papel do ateliê na educação infantil: A inspiração de Reggio Emilia. Porto Alegre: Penso, 2012.
GONÇALVEZ, Luiz Gonzaga. A noção de corpo(s) consciente(s) na obra de Paulo Freire. Disponível em: http://www.cppnac.org.br/wp-content/uploads/2012/09/Corpo-Consciente.pdf. Acesso em: 09/02/2013.
SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Orientações Curriculares: Expectativas de aprendizagem e orientações didáticas para a educação infantil. São Paulo: SME/DOT, 2007.

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2 respostas para Corpo consciente: Uma experiência com linguagens na educação infantil?

  1. Beto disse:

    “Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos… ”

    http://portal.mda.gov.br/portal/saf/arquivos/view/ater/livros/Pol%C3%ADtica_e_Educa%C3%A7%C3%A3o.pdf
    Boa leitura.

  2. Marvi disse:

    Um bom livro para este debate é “Infância” (1945) de Graciliano Ramos.

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