Pedagogia desde a Corporalidade: reencontrar o Corpo

freire3Construímos este diálogo: Adriano S. Nogueira Taveira (editou). NIMEC, Unicamp.; Joana Lopes – Instituto de Artes, Unicamp, e Paulo Freire.*

Joana Lopes – Começamos nossa reflexão com o professor Paulo Freire colocando-lhe uma primeira questão: – qual seria, e como seria formulada uma contribuição nossa, de Educadores do assim chamado Terceiro Mundo?.

Em situações de trabalhos e diálogo com outros Educadores é importante uma certa clareza de nossa contribuição. Essa questão se coloca como uma espécie de pauta. Pauta para que?. Para  diálogos com outros Educadores. Temos convivido com aqueles que trabalham no “Primeiro Mundo”  e, como nós, estão buscando uma educação não castradora. Veja,  Professor, com eles estamos buscando  pautar avanços no trabalho de Educadores que não divorciam Ciências e  Artes.

Paulo Freire – Quando você se refere a  “contribuição do Educador do Terceiro Mundo”  para  problematizar a atualidade  eu gostaria, Joana, de acrescentar algo;  onde você diz “Educador do Terceiro Mundo”, eu prefiro dizer “Educador progressista do Terceiro Mundo”.  Por que?. Porque prefiro refletir a contribuição deste Educador, que está em busca da qualidade de trabalho educativo que eu considero importante;  refiro-me a uma postura e não apenas a alguns itens ou tópicos.

O trabalho de um Educador progressista busca superar certas limitações que são marcantes nesta virada de século. São (limitações) sociais, econômicas e culturais; e são mundiais,  estando enraizadas numa certa concepção de progresso e de civilização. A que limitações me refiro?. Refiro-me a um certo pragmatismo que se impôs a todas as dimensões da vida e, no campo de educação,  entende que educar prioriza ou se restringe a formação instrumental. Com base nesta concepção muito pragmática  a  educação tem se limitado a instrumentalizar Homens e Mulheres para que estes possam adequar-se a necessidades e características do  “progresso tecnológico”.

Penso que esta instrumentalização forma seres humanos demasiadamente adaptados e, porque instrumentalizados, são  práticos e operativos. Parece-me que este enfoque pragmático dá ênfase apenas à influência que os seres humanos sofrem deste modelo tecnológico, capitalista neoliberal. Parece-me que esta concepção de Educadores capacita adestrando, o que é empecilho à saúde política de seres humanos.

O que seria superar o pragmatismo instrumental que, segundo me parece, privilegia adestramento?. Uma Educação progressista faria outra ênfase. Colocaria mais atenção na capacidade humana de interagir e, interagindo, se faz capaz ao construir coletivamente o entorno. Portanto a superação insiste na abertura para interações na dimensão coletiva com que os humanos constroem mundo. Neste enfoque, que considero progressista, a competência instrumental viria comandada não apenas pela demanda tecnológica, mas, principalmente, a competência instrumental viria a serviço da necessidade humana de desenvolver-se, transformando-se a si mesmo. Em que direção?. Permanentemente em direção ao  ser mais gente. Parece-me que retomamos, assim, a uma amplitude do trabalho educativo que, no fundo, confunde-se com a necessidade humana de humanizar-se. Ao fazê-lo, o ser humano coletivamente constitui  mundo.

Adriano Nogueira – Me permite uma provocação, Paulo. Tenho em vista que, através desta reflexão, expõem-se contribuições da Educação para o ser humano que vira o século. Uma primeira contribuição:  a atividade educativa visa não apenas obter um produto final; ou seja, através de processos educativos este ser convive não apenas com conteúdos que garantam um produto final que seria, em tese, o humano capacitado/adaptado. Vivenciando processos-educativos o ser humano curte sua capacidade de aprendizado;  ele curte a si mesmo, curte o gosto prazeroso de tomar-se a si mesmo nas mãos e, interagindo, constituir/transformar coletivamente o bairro, a  cidade, o  país.

Estou me referindo à aptidão de seres humanos cuja competência espelha não apenas a capacidade operativa instrumental mas, também, expande Gente  feliz, descobrindo-se subjetivamente e coletivamente. Minha indagação  a Paulo Freire leva uma afirmação interna que é a seguinte: – as atividades educativas não são, apenas, atividades meio, condicionadas por um produto final desejado. Nelas envolvido o ser humano é, ele próprio e a cada momento, o objetivo amplo de todo o processo. Por isso, a instrumentalização não pode se vincular apenas às condições tecnológicas. Isso seria limitante para a politização, limitante para o gosto prazeroso com o qual o ser humano se descobre capaz de aprender.

Paulo Freire – Tu avançaste, Adriano, rumo àquilo que eu denominava “amplitude de trabalho educativo”. Penso que é insuficiente ao ser humano conhecer tecnicamente bem os conteúdos e as disciplinas do currículo. Por que?. Porque conhecer tecnicamente bem é apenas questão de aptidão performática,  garante apenas quantidade de conhecimentos. Esta erudição tem sua importância mas o ser humano é mais. A capacidade de cognição dele é mais ampla. Capaz de conhecer conteúdos da cultura, o ser humano é também capaz de compreender-se a si mesmo como criador dela e, constatando isso, ele  vive pedagogicamente um gosto prazeroso, como tu disseste.

O século XXI pedirá a nós, Educadores, todos, Homens e Mulheres críticos. E nós, Educadores de Terceiro Mundo, temos tido um trabalho de criação pedagógica através da qual o ser humano se descobre sendo gente…

Adriano Nogueira – … Se me permite, Paulo, e porque tua reflexão questiona certas posturas, eu acrescentaria o seguinte: – o que é limitante no pragmatismo é que ele propõe posturas ou atividades-meio justificadas pela finalidade. Quando este pragmatismo limitante pensa Educação ele fixa âncora num certo padrão de progresso  e de performance;  a partir disso, a criação pedagógica termina sendo apenas questão de metodologia. E, nisso, nesta Educação, a relação Educação-Educador acaba sendo apenas estratégia. Fica simplificada demais. E, não sendo, quase nunca, postura pró relações em busca de criação de conhecimento mas sim postura pró desempenhos  esta estratégia se restringe a alguns slogans performáticos,  de tipo: – qualidade total, otimização de Escola, maximização da produção escolar a partir de uma correlação entre custo/benefício, avaliação como performance, etc.  Os slogans  variam, de acordo com a metodologia que está “na moda”.

Paulo Freire – Me parece, Adriano, que esta concepção pragmática de educação trabalha segundo uma idéia de eficácia que  correlaciona… (1) aquilo que é exigido do Educando como saber “que funciona” e (2) aquilo que este Educando deve desenvolver como comportamento resultante da escolarização. Penso que há uma estreiteza aí. Há uma perda.

Joana Lopes – Essa perda, Professor, seria um  preço a ser pago pelo “sucesso” da seriação, da repetição e do encadeamento de atividades e raciocínios  baseados mais na  metodologia do que na criação. Esse preço é pago em perda da criatividade, perda de um tempo próprio no qual o Educando  desenvolve  autonomia relacional.

No campo da Arte estas reflexões são muito importantes. O que seria muito próprio da Arte?,  A criação, a expressão da subjetividade trabalhada, a autoexpressão; tudo isso não pode ser colocado como apenas um conjunto de procedimentos técnicos. Ou, como dizia o Adriano, não se pode resumir interações educativas a estratégias didáticas. O que se perde, neste caso, é a elaboração crítica em que a subjetividade se autotrabalha de modo  integrado,  expressando-se em coletivos.

Penso que esta é uma outra contribuição  que pode ser inferida da reflexão de Paulo Freire. Trata-se de qualificar o relacionamento Educador-Educando para que  cada Educando seja o “fabricante” de si mesmo. Isso lhe permite assumir  interações e  expressões como compromisso de humanidade em desenvolvimento. Numa concepção de educação pragmática e performática, baseada em eficiente cumprimento de conteúdos e buscando a estrita instrumentalização, cabe a este Educando sentir-se órfão e indagar, sempre  “me diz aí:  o que você quer que eu faça?”.

Adriano Nogueira – Joana… parece-me tu nos colocas (de forma recriada) a elaboração de Paulo na Pedagogia do Oprimido;   ele a denominaria  autodeterminação a partir da relação Educador-Educando. Pergunto como é que você situaria essa formação relacional da autodeterminação…

Joana Lopes – Podemos observar que, nas Artes do início do século XX europeu,  houve um momento que poderia ser denominado de Refundação do Teatro e da Dança. Houve Pedagogos do Teatro e da Dança, pessoas de cuja proposta e trabalho eu posso inferir uma provocação para a autodeterminação formadora. Esta se daria a partir de percepções  em que não existem discursos de convencimento.  Neste clima houve propostas de trabalho que repensavam certas estruturas, muito cristalizadas. Repensavam o Corpo, as Artes Cênicas e a Corporalidade.  Por exemplo: Eu, Educadora-Artista, posso pedir a um Estudante que ele…  vá de encontro ao andar cotidiano, usual, dele próprio. Isso exige trabalho. Exige reencontro reflexivo. Ora… este Estudante não anda sempre da mesma maneira, ele  não é um todo único e igual, homogêneo. Minha interação estimula que ele vá descobrindo a si mesmo.

Na verdade, ele vai reconstituir minha proposta inicial, através da interação ele constrói alguma concepção em torno ao desafio que lhe propus.  Nessa reconstituição ele vai lidando com a  subjetividade, vai tomando rédeas na interação consigo mesmo, vai pondo rumos. E vai exigindo de mim, Educadora, que eu interaja em reciprocidade, recriando a proposta inicial e reconhecendo na  criação dele algo que juntos, Educando e Educadora, vamos criando como linguagem suficiente para dar conta de elaborações. E mais:- juntos,  vamos constituindo uma história de conhecimentos. Esse trabalho tanto retoma conhecimentos mais antigos como atualiza  conhecimentos. Essa  história, essa linguagem e esses conhecimentos produzidos são a base fundamental para o reconhecimento da criação.  Que se expressa em algum produto.

No reconhecimento desse produto  o que houve?. Houve que  Educador e Educando criaram elementos físicos e estruturais elaborando, assim, uma segunda linguagem (a da Arte) que traduz e recria a linguagem cotidiana. Cria-se  linguagem como uma experiência política calcada em duas direções: um forte trabalho com a própria subjetividade e, também, um outro trabalho, requerendo interações educativas  não castradoras. Parece-me que  estaria `por aí’  a intenção daquela Educação como  prática de  liberdade.

Penso que retomamos muitas das contribuições do Professor Paulo Freire, na medida em que esse “afazer” simultaneamente vai construir linguagem, construir memória de processos e, então, construir conhecimentos que são  fontes integradoras da Arte e das Ciências na Cultura.

Paulo Freire – … Vejam vocês, Joana e Adriano, neste mesmo exemplo dado, de propor a um  Jovem que ele vá de encontro a seu próprio caminhar.  Ao  jovem  que se inicia na compreensão e no fazer artístico, quando tu pedes a ele que “ande como  normalmente caminha”  talvez a primeira descoberta dele seria a  percepção de que ele não pode fazer isso. E por que?.  Porque o que ele produzir será um “andar cotidiano produzido”. Ora, quando descobriu que não pode caminhar “como sempre o faz ”  mas que, não obstante, pode e é capaz de criar… certamente descobriu muitas coisas aí. Descobriu uma série de reflexões sendo feitas.

São descobertas que exigem reflexão com subjetividade. Em seguida, demandam refletir sobre as interações desta subjetividade. Em primeiro lugar, eu diria, este jovem descobriu que não anda só. Nunca caminha só. Por dentro da aparência de “estar só” existe toda uma memória de “estar acompanhado”. As compreensões que daí emergem denotam um `coletivamento’,  como dissemos aqui.

Em segundo lugar eu diria que o Jovem vai descobrindo que, quando caminha, ele traz para o processo de andar uma série de relações que estabelecem o jeito de andar deste  ou daquele modo. Que é que eu digo com isso?. Digo que uma pessoa caminha de um jeito se estiver tranquila, passeando. A mesma pessoa caminha de outro jeito se sentir-se perseguida. E mais, caminha de um terceiro jeito se estiver namorando. E há um quarto jeito de andar, se esta pessoa estiver aflita, perdendo hora de entrar em serviço. E assim por diante.

O que me chama a atenção, Joana, neste trabalho  é que o Artista joga muito com o movimento (no andar) a respeito de cuja causa quem estaria interessado é o sociólogo, o psicólogo, o antropólogo, o terapeuta ocupacional… e também o físico, em certa dimensão. O que faz o Artista aproximar-se daquele movimento e buscar a expressão dele cria uma linguagem. O trabalho do Artista  capta e expressa um conjunto de emoções estampadas no  corpo, pelo corpo. Capta  expressões sem preocupar-se  em definir previamente  um  porquê ou um enquadramento.

Joana lopes – … Poderia dizer, Professor Paulo, que o trabalho artístico (agregado ao trabalho científico)  dá conta não do  “por que” tais e tais  ocorrências são aquilo que são. Mas, sim, o trabalho artístico vai em busca do “pra quê”  algo está se dando nesta forma.

Paulo Freire – Exato.

Adriano Nogueira – Nessa situação comentada por Vocês eu tenho uma curiosidade. Com o Jovem que vai refletindo sobre o andar e que vai expressando este andar em variadas formas de caminhar… pergunto: como nós poderíamos averiguar com ele o que foi conhecido durante a busca?. Como averiguar o que ele conheceu enquanto se movia conhecedoramente?.

Paulo Freire – Entendo o que tu dizes, Adriano. A impressão que tenho é que o Artista  aceita o desafio de sair do seu campo, sai de sua perspectiva particular. Em outras palavras  o Artista, além da sua perspectiva, à qual não se restringe,  assume uma postura epistemológica diante de sua própria criação. Para mim isso  é o fundamento artístico que é fundamentalmente humano. Vale dizer, é também artístico. E, veja bem, estamos falando de um Sujeito que é profundamente curioso. No entanto, esse tipo de olhar abrangente, essa postura epistemológica e essa curiosidade de que estamos falando é aquela que conduz  à expressão e construção da subjetividade humana.

O desafio que Joana pede ao Jovem é  epistemológico: – ela desafia o Jovem para que ele se assuma e se aceite como sujeito diante de sua arte. Isso fortifica, no Artista, um certo conhecimento. Ele conhece melhor sua capacidade de relação com o objeto diante de que se deleita, ao mesmo tempo em que  busca expressar numa linguagem.  Esse conhecimento, eu diria, não é apenas artístico mas, sim, torna mais humano o Artista.

Adriano Nogueira – Na continuidade, perguntarei a vocês dois: e  Arte…. se ensina? Como que vocês reconheceriam:- eis ali um professor de Arte!.

Paulo Freire – Penso o seguinte, Adriano. O ensino de arte, feito pelo Professor, não consegue inventar um Artista. Mas o que se coloca durante a produção artística oferece problemas e questões que são explorados pelo Professor e  contribuem para desabrochar no Jovem um Artista. Ou seja, o Professor pode contribuir para que haja relações artísticas entre o Estudante  e suas criações…

Joana Lopes – E, além disso, Professor, o Educador-artista ajuda a descobrir elementos que podem estruturar a  arte como “coisa própria” na experiência do aprendiz. O conhecimento da madeira, o conhecimento da tinta, o conhecimento do espaço cênico, o conhecimento coreográfico, o conhecimento do traço e da cor num espaço, conhecimento de textura e umidade na cera ou na cerâmica e etc., que são, sempre, conhecimentos multidisciplinares vão aprofundar-se naquilo que é intuitivo no Jovem.  Sendo a intuição uma parte do  ato de conhecimento, pode o Professor  contribuir para que este vá inteirando-se. Ou seja, contribui para que o Jovem “seja” de Corpo inteiro..

Isso me faz lembrar de um estudo que acompanhei com interesse. Um Jovem Estudante chamado Chi Li Chung, de origem chinesa, defendeu uma tese de Doutoramento que é um estudo corporativo. Ele coloca por um lado a noção de eficácia oriunda da industrialização e, na pesquisa, examina a eficácia de uma industria no Japão.  Por outro lado ele examina a prática produtiva interna a uma Escola de Samba, no Rio de Janeiro. Nas conclusões, este Jovem comenta a alta produtividade da Escola de Samba e, em seguida, comenta o alto nível de sofisticação cultural dessa produtividade. Outra das conclusões dele é que a industrialidade  japonesa não alcança  tal qualidade de produtividade e sofisticação (como a Escola de Samba)  porque a lógica do aprendizado na industria é parcial; ou seja, o produto final industrial surge não após um trabalho interativo, mas, sim, após o acoplamento de especificidades. Na Escola de Samba, há estreita correlação entre harmonia, equilíbrio, aprendizado e produto… ou seja, o Sujeito Humano não pode ser consumido dentro da especificidade  sendo desempenhadas.

Paulo Freire – Vejam vocês, que trabalho humano formidável. Escolas de Samba são um espetáculo cultural coletivo. São uma proposta pedagógica popular de criação artística. Sendo escolas, elas alcançam uma certa formalização mais vital do que nossas escolas.

Joana Lopes – Poderiam ser denominadas: Ópera Popular, aquilo que os refundadores teatrais desejavam. Penso que importante nessa pedagogia popular é a integralidade com que se considera o corpo humano. O  corpo baila, o corpo absorve, o corpo harmoniza e, relacionando-se criativamente, cria coletivamente.

Paulo Freire – Sim, o  corpo humano exige reflexões daquele teor a que eu denominava epistemológicas. A corporalidade é um tipo de consciência que se baseia numa inteireza consigo mesmo. Isso se expressa, ao desenvolver-se, nas interações com os objetos e com os outros seres humanos. Não apenas  consciência de mim mesmo, que me sugerem consciência do entorno mas, penso eu, a consciência de inteirar-se do mundo e com o mundo, que me permite criar noções do “eu consciente”.

Adriano Nogueira – Permita-me, Professor,  uma provocação mais. É muito comum em nossa cultura popular que o letrado (aquilo que é gráfico) venha depois e com menos desenvoltura que a percepção corporal. Me lembro do que tu disseste, em outra situação: a leitura do mundo precede a leitura da palavra escrita. Temos a considerar, então, uma certa “densidade epistemológica” da corporalidade.  E ela, densidade corporal, que aos espaços agrega valor e scientia, reconhece (neles, espaços) o território..

Paulo Freire –  … e isso me sugere que minha consciência não está no cérebro, nem ela está nos pulmões ou no coração. Minha consciência sou EU,  corpo. E meu corpo se constitui corpo consciente na medida em que se relaciona com outros humanos e com espaços.

Às vezes tenho a impressão de que o assim chamado Primeiro Mundo tem um certo remorso do corpo. Em alguma atitudes, em certos gestos, a cultura cotidiana do Primeiro Mundo é menos plena de  corporalidade.  Pessoas interagem com uma certa culpa, como se fosse vergonhoso ter corpo, culposo ser e expressar-se passando sempre e necessariamente pela  corporalidade. As atividades declaradamente intelectuais expressam-se como que desvencilhando-se da  corporalidade. Talvez se comportem como se houvesse uma alma humana  danificada por habitar um corpo;   influência talvez da dualidade cristã alma-corpo.

A imensa influência africana sobre nós, Latino americanos, nos deixou a contribuição do valor do corpo na formação da consciência. Neste sentido, podemos plantear como pauta nos diálogos com outros Educadores esta pedagogia desde a corporalidade. Isso faz parte da cultura cotidiana e creio que isso contribui para totalizações epistemológicas muito amplas. Haver menos pecado, menos remorsos nas atitudes e, simultaneamente, haver consciência  humana mais ampla, menos alienada, mais interdisciplinar. E os Educadores progressistas de Primeiro Mundo nos verão menos como “coisas exóticas” ou nos verão menos como “fenômenos parapsicológicos,  pré-modernos” e, sim, nos verão mais como companheiros de discutir e compreender problemas humanos.

É nesse sentido que eu dizia a vocês: – o mundo é um só, uma só realidade. Dividida pelo poder, dividida pelos conflitos de interesses de classes sociais, numa só realidade humana. Nesta realidade, nós, Latino americanos, somos testemunhas de um certo gosto: – o gosto de sermos uma pedagogia corporal em que partejamos os seres humanos que estamos sendo.

*Nogueira, Adriano (Org.) Reencontrar o corpo. Taubaté: Cabral Editora, 1996.

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56 respostas para Pedagogia desde a Corporalidade: reencontrar o Corpo

  1. Gabriela de S. H. Garcia disse:

    Uma forma adequada para entender o que precisa ser melhorado (ou mudado) na Educação, é permitir que as vozes dos mediadores desse conjunto de transformações e aprendizado sejam ouvidas: os educadores e educandos.
    Porque questionamentos podem contribuir, já que muitos pesquisadores se envolvem na reflexão da qualidade da Educação?
    O ponto de partida para a verdadeira reflexão se encontra no próprio meio social em que esses educadores e educando estabelecem relações subjetivas, ou seja, interagem em um processo pelo qual os pensamentos, os elementos fornecidos surtem sentido.
    Como pequenos grupos sociais, aparentemente parecidos, com os mesmos problemas e conflitos, não necessariamente buscam as soluções da mesma forma engessada. É essencial observar as diferenças que constroem cada meio social e seus respectivos envolvidos.
    Os questionamentos reflexivos das fases e dos mecanismos do ensino precisam ser adaptados a partir dessa ênfase que colocaria mais atenção na capacidade humana de interação.
    Ótimos exemplos para que isso ocorra se encontra na nossa própria Língua Portuguesa, através das diferentes formas lingüísticas de comunicação: a Literatura e sua rica potencialidade.
    Como essa descoberta coletiva e subjetiva do ser em sociedade pela Literatura, pode gerar um aprendizado significativo com o direcionamento voltado para o gosto prazeroso com o qual o ser humano se descobre capacitado à aprender?
    O prazer da descoberta daquilo que é inesperado ( a leitura mexa com os sentidos de admiração) e curioso ( o desejo de conhecer ) tem um grande valor humano, assim como precisam ter as atividades literárias educativas voltadas para o verdadeiro ensino interacionista, que expande a capacidade de cognição ampla do ser.
    A necessidade de aprender faz nascer a competência para o progresso do ser, seja ele intelectual, cultural ou social.
    As correlações entre essas três visões de progresso podem ser fruto de uma educação voltada pra a realidade que nasce dentro da escola (do meio de convívio) e desenvolve dentro do educador e educando, como um segmento de dar e receber, ida e volta.
    Além de a Literatura fornecer essa visão de progresso, outra forma que possa transmitir às respostas pessoais de ambas as partes como meio de criação de uma “ponte” de diferentes conhecimentos e percepções, que se interligam para abrir novas dimensões reflexivas é a própria criação de exercícios narrativos, onde a Língua Portuguesa ganha vida e sentido.
    Quando entra em discussão o uso dessa dimensão reflexiva ( exercício narrativos), o aspecto de maior ganho na busca pelo êxito da interação é a criatividade.
    Onde não há possibilidade de uma disposição que limite as diversas formas de chegar aos novos conhecimentos, fazendo parte da consciência do ser.
    Através de todo meio de expressão literária que produza o equilíbrio entre o aprendizado e o gosto pelo saber. Exemplos significativos dessas correlações criativas voltadas para a literatura.
    Quando pensamos naquilo que possa significar o termo “literatura”, precisamos abranger tudo o que possa encaixar nesse aspecto tão importante.
    Ou seja, a Literatura pode ser vista como a arte de escrever trabalhos em prosa ou versos, mais do que isso é o olhar para uma prática que produza uma expressão cultural criativa e coletiva de uma sociedade.
    O envolvimento desse meio social que produza uma expressão literária que fale por todos os sentidos do seu espaço intelectual, suas visões de mundo e influências.
    Gabriela de S. H. Garcia – aluna 4º semestre – Letras/2013
    Email: gabrielaxbeia@gmail.com

  2. Deise Yuri Souza Lopes disse:

    Concordo que sejamos corpos conscientes. Não há como se criar, reinventar a não ser por meio do corpo físico. A mudança, a reflexão começa na mente, mas só é considerada autêntica quando perpassa o corpo. O corpo propicia o contato com o mundo, por isso, de modo algum deve ser subjulgado em detrimento da mente ou vice-versa. Somos um ser só, unos e o nosso desafio, como pessoas ou como educadores é enxergarmos a nós mesmos e nossos educandos como tal. Não existe dualidade entre alma e corpo, nem mesmo no Cristianismo, onde vemos Cristo alimentando tanto o corpo quanto a alma das pessoas. O que existe é um má interpretação das Escrituras Sagradas sob a influência de outras culturas que segregam a alma do corpo para justificarem sua não-participação da vida da sociedade pela luta de justiça e democracia – que só podem ser realizados pelo corpo.

  3. ELISA SOARES DOS SANTOS JACOB disse:

    ATRAVÉS DA REFLEXÃO DO TEXTO DEVEMOS SUPERAR LIMITAÇÕES,SOCIAIS.ECONÔMICAS E CULTURAIS PARA QUE HAJA UM APRENDIZADO PRAZEROSO E DE QUALIDADE AGUÇANDO A CURIOSIDADE DOS EDUCANDOS EM BUSCA DE CONHECIMENTOS E AMPLIANDO-OS, O PROFESSOR TEM QUE TER A CONSCIÊNCIA EM DEIXAR OS ALUNOS PARTICIPAREM DA AULA DANDO SUA CONTRIBUIÇÃO PARA QUE OCORRA O APRENDIZADO ATRAVÉS DA INTERAÇÃO E TROCAS DE EXPERIÊNCIA ENTRE AMBOS.ONDE A ARTE SE FAZ TÃO IMPORTANTE COMO AS DEMAIS MATÉRIAS DO CURRÍCULO PARA QUE OCORRA ESSAS INTERAÇÕES EDUCATIVAS E NÃO CASTRADORA.E ATRAVÉS DE UMA EDUCAÇÃO DIALÉTICA DEVEMOS COMPREENDER PROBLEMAS HUMANOS ONDE O MUNDO É DIVIDIDO PELO PODER,CONFLITOS E CLASSES SOCIAIS .MÁS QUE ISTO NÃO NOS IMPEÇA DE AGIRMOS NOSSOS CONCEITOS,VALORES E ACIMA DE TUDO OPINAR E CONTRIBUIR A MUDANÇAS POSITIVAS PARA SOCIEDADE.

    ELISA SOARES DOS SANTOS JACOB
    TURMA :SABADO

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