Rizoma e educação

Rizoma e educaçãoMaria Estela Araujo de Luna

(..) É preciso não esquecer que os “círculos de cultura” reuniam nordestinos analfabetos em sua grande maioria acentuadamente rústicos e que esta condição sociocultural da clientela, aliada à curta duração dos trabalhos (cerca de quarenta horas), impossibilitava uma reflexão mais aprofundada sobre os temas então examinados. Mas, era um começo. (…) (Beisiegel)

Para falar em rizoma e educação começarei transcrevendo a sua definição. Primeiramente, de acordo com Bechara em seu Minidicionário da língua portuguesa essa é a definição de rizoma “(…) Rizoma (ri.zo.ma) sm. Bot. Caule subterrâneo. [Do Gr. Rhizoma, atos.] (…)”. Essa é a definição advinda da botânica, da qual se derivou e se adaptou o conceito filosófico descrito a seguir.

De acordo com o filósofo Joseph Vogl (2012), rizoma é um conceito chave da filosofia moderna, que testa a capacidade da inteligência de encontrar começo num labirinto sem fim. Esse labirinto é uma estrutura de passagens, sem centro nem periferia. É um sistema composto, apenas, de passagens e desvios, mas jamais em linhas retas e diretas. Tais características, o distingue da história ocidental do labirinto, já que nesse seria possível entrar e encontrar começo e fim, tal qual descreve o mito do Fio de Ariadne.

De acordo com o texto Desfiando o fio de Ariadne (DIAS, 2000) “(…) Como um labirinto, composto de salas e corredores, construídos de forma intricada, dos quais não se percebe a ideia do todo, o hipertexto se compõe de textos, fragmentos de textos, imagens, sons interligados. (…)”.

Traduzindo para a linguagem da internet, encontramos o hipertexto que se apresenta, segundo Bechara, como textos ou conjuntos de textos, acessados por computador por meios de links que podem ser lidos de diversas maneiras e não necessariamente de forma linear. De certo modo, podemos associar o hipertexto da informática, que interliga um texto com o outro por meio de links com o intertexto da literatura, que influencia outros textos posteriores.

O conceito de rizoma se entrelaça com o conceito de hipertexto. Na internet, os links funcionam como botões de acesso a outros textos que estão interligados por meio dos mesmos, o hipertexto. Essa relação se dá da seguinte forma, se os rizomas se caracterizam como sendo labirintos sem começo nem fim, sistemas de passagens e desvios que não possuem linearidade, dessa maneira também acontece com o hipertexto.

Ao acessamos um hipertexto utilizando links, podemos notar que nossa leitura pode ser infinita, já que um link leva a outro texto e a outro, inúmeras vezes ou até se esgotar as fontes de pesquisa, e levando-se em consideração a quantidade de dados armazenada na internet, diríamos que não se pode esgotar as possibilidades de pesquisa em hipertextos. Também não há linearidade na leitura do hipertexto, já que os links que os interligam dão aos leitores opções que aparecem desordenadamente sem que haja perda no sentido da pesquisa.

Hoje, a tecnologia faz parte da vida de todas as pessoas, podendo aparecer de forma mais ou menos sofisticada como é o caso da televisão, o antigo videocassete ou o mais atual DVD, por exemplo. Estes e outros aparelhos, que já foram e ainda são muito utilizados na área da educação, têm seu lugar de importância, mas apresentam suas limitações no que diz respeito aos seus recursos tecnológicos, já que cumprem apenas a função de reproduzir dados por meio de mídias, mas não são capazes de armazená-los. Não há interação direta entre as pessoas por meio desses aparelhos.

A função da tecnologia na vida das pessoas pode ser muito variada: entretenimento, conhecimento ou informação. Hoje, a maioria das pessoas tem acesso à internet, tecnologia sofisticada, que também pode servir como diversão ou para informação. Esta possui um diferencial, que é o de estar em constante processo de avanço tecnológico. O uso doméstico da internet pode convertê-la em artefato para a diversão, se bem utilizada, como também pode não passar de futilidade, se o usuário não souber fazer da mesma um dispositivo produtivo.

Sabemos que a internet é um instrumento de muita valia usado em diversas empresas e em vários ramos profissionais. E como ela pode ser utilizada na educação? Como ela pode ser usada enquanto tecnologia na educação? Pensando nas escolas públicas brasileiras, sabemos que poucas são as que possuem acesso às tecnologias da informação, por falta de recursos, projetos, políticas dentre outros motivos.

Pensar no uso das tecnologias da informação para a escola pública é uma estratégia viável diante de todas as dificuldades enfrentadas pela mesma como o analfabetismo, evasão de alunos, falta de vagas nas creches e tantas outras dificuldades.

O trecho, a seguir, extraído do texto Desfiando o fio de Ariadne nos leva a refletir um pouco acerca dessas questões

(…) O que nos cabe é procurar pensar o hipertexto, enquanto recurso ligado às novas tecnologias aplicadas à educação, deixando claro, porém, o seguinte: por parte daqueles envolvidos de forma mais direta no processo educacional, proclamar os avanços, cada vez mais rápidos, das novas tecnologias e de suas implicações, cada vez maiores, no campo pedagógico, em detrimento da discussão de problemas candentes como o analfabetismo, por exemplo, é impedir uma reflexão mais abrangente no que diz respeito à educação brasileira. (…)

Mesmo que ainda não tenha sido possível às escolas brasileiras sanar o problema do analfabetismo, a educação não pode fechar seus olhos  às novas ferramentas que dispomos a favor do trabalho pedagógico, e que se atualizam constantemente. É necessário cuidar da alfabetização de todos os estudantes, de todas as idades enquanto direito e dever de professores e dos próprios estudantes. Porém, a educação não pode se paralisar no tempo enquanto se discute o analfabetismo, também se pode discutir novos meios, como as possíveis interações nas redes, para avançar em vários aspectos relativos ao trabalho educativo, além do próprio analfabetismo.

Diante da realidade da globalização, deixar de reconhecer a importância da interação por meio da internet é negar o direito do estudante e do professor de participar na sociedade independente da instituição a que se refira, não só a escola. A classe dominante prefere ver as camadas populares excluídas dessa forma, quanto mais massificados estiverem, melhor. E nessa população inclui-se, também, o professor.

Precisamos nos reeducar para prosseguir caminhando em direção ao futuro próximo do tempo presente, pois é nessa direção que devemos seguir.  Devemos voltar nosso olhar para trás, para perceber os avanços que já obtivemos e não para repetir modelos prontos e impostos de maneira hierarquizada. O giz e a lousa foram ótimos recursos quando não havia outros para as escolas, mas estamos na era da tecnologia da informação e devemos tirar o melhor proveito dessa situação, para enriquecer e também tornar mais prático, dinâmico o trabalho pedagógico. Não só no que diz respeito ao trabalho realizado dentro da sala de aula de uma escola, mas também, além dela, para a aprendizagem do professor e do estudante.

Os rizomas realizados nas redes proporcionam acesso à  informação em tempo real, onde podemos obter dados de qualquer tema ou pesquisa de todos os lugares do mundo, não existe tempo ou lugar para se fazer rizoma, já que dispomos de diversos aparelhos portadores de tecnologia os quais podemos levar a qualquer local e interagir a todo momento.

Podemos observar que os conceitos apresentados acima se aproximam muito em significado, isto foi feito dessa maneira para melhor ilustrar o presente texto desta reflexão. Lembrando que esta pesquisa foi realizada, também, com o auxílio da internet, além do uso de outras fontes bibliográficas, é claro. E as próprias referências bibliográficas listadas ao final deste trabalho são, de certa maneira, links que direcionam o leitor a outras fontes de pesquisa. Estamos fazendo “rizoma na rede” (GOMEZ, 1999) sem sequer, talvez, nos apercebermos.

Referências
BECHARA, Evanildo. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BEISIEGEL, Celso de Rui. Paulo Freire. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. Coleção Educadores. (Círculos de cultura p.64).
DIAS, Maria Helena Pereira. Desenrolando o fio de Ariadne In: O labirinto eletrônico uma experiência hipertextual. 2000. Disponível em: http://www.unicamp.br/~hans/mh/fio.html Consultado: 22/02/13.
GOMEZ, Margarita Victoria. Educador/a fazendo Rizoma… Videtur, n.6, 1999. http://www.hottopos.com.br/videtur6/rizoma.htm Consultado: 22/02/13.
GOMEZ, Margarita Victoria. Educação em rede: uma visão emancipadora. São Paulo: Cortez, 2004. 216 pp.
SAO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Orientações curriculares: proposições de expectativas de aprendizagem – Tecnologias de Informação e Comunicação / Secretaria Municipal de Educação – São Paulo : SME / DOT, 2010.
VOLG, Joseph. Waht its Rhizome? Prime Time –  06/08/2012 http://www.youtube.com/watch?v=2k-wWziPk-g. Consultado: 22/2/13.

 [1] Mitologia grega: Teseu ganhou de Ariadne um fio de linha, para orientar-se pelo labirinto de Mimos, onde estava o Minotauro, que foi morto por ele. Por meio do fio, Teseu pode encontrar a saída do local.

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Uma resposta para Rizoma e educação

  1. Beto disse:

    Animación stop-motion para ilustrar a teoría pos-moderna rizoma em relação com a educação contemporánea e minha própria viagem pessoal de aprendizagem…
    Joana Hyatt

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