Interação e mediação

freire3Telma Rodrigues; Dirce Pereira de Sousa; Sônia Maria Pontes; Maria Aparecida de Jesus Miranda

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Nesta postagem vamos comentar algumas ideias sobre o processo de aprendizagem humano a partir das contribuições de Lopes (2008), Marques (2006), Freire (1987), entre outros.  A primeira questão a destacar é que a interação social e a mediação do outro tem fundamental importância na escola. Pode-se dizer que a interação professor-aluno é imprescindível para que ocorra o processo  de aprendizagem.  Por essa razão, justifica-se a existência de tantos trabalhos e pesquisas na área da educação dentro dessa temática, os quais procuram destacar a interação social e a atuação do professor mediador, como requisitos básicos para qualquer prática educativa efetiva.

Percebe-se, na bibliografia consultada, uma vasta produção sobre esse tema e a valorização do diálogo como constitutivo dos sujeitos. No entanto, Freire defende a ideia de que só é possível uma prática educativa dialógica, por parte dos educadores, se estes acreditarem no diálogo como um fenômeno humano que mobiliza as pessoas para refletir e agir.  E para compreender melhor essa prática dialógica, Freire acrescenta que o “diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não se pode reduzir a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes.” (FREIRE, 1987, p. 79).

Conforme Vygotsky, construir conhecimento envolve uma ação partilhada e um processo de mediação entre sujeitos. (MARQUES, 2006) interacao2
Marques (2006) considera que a interação social é indispensável para a aprendizagem. A heterogeneidade do grupo enriquece o diálogo, a cooperação e a informação, ampliando consequentemente as possibilidades individuais. As relações sociais internalizadas se convergem em funções mentais. Assim, a partir da mediação do outro ocorre o desenvolvimento dos níveis superiores da mente. Através da mediação a criança se apropria dos modos de comportamento e da cultura, representativos da história da humanidade.

Paulo Freire, segundo Marques (2006), defende a educação como ato conhecimento e político, destacando a necessidade de uma razão dialógica comunicativa onde o ato de conhecer e de pensar estariam diretamente relacionados. O conhecimento seria um ato histórico, gnosiológico, lógico e também dialógico.

Assim, quanto mais o professor compreender a dimensão do diálogo como postura necessária em suas aulas, maiores serão os avanços em relação à educação dos alunos, pois, conforme Lopes (2008), desse modo, sentir-se-ão mais curiosos e mobilizados para transformarem a realidade. Quando o professor atua nessa perspectiva, ele não é visto como um mero transmissor de conhecimentos, mas como um mediador, alguém que faz parte da vida deles e que articula as experiências dos alunos com o mundo, levando-os a refletir sobre seu entorno, assumindo um papel mais humanizador em sua prática docente.

Já para Vygotsky, segundo Lopes (2008) a ideia de interação social e de mediação é central do processo educativo. Esses dois elementos estão relacionados ao processo de constituição e desenvolvimento dos sujeitos. A atuação do professor é importante já que ele é mediador da aprendizagem do aluno. Certamente a qualidade de mediação do   professor é importante para a criança, pois desse processo dependerão os avanços dela em relação à aprendizagem na escola.

Esta autora (LOPES, 2008), nos leva a refletir sobre a maneira de organizar uma prática escolar. Considerando esses estudos é, sem dúvida, importante conceber o aluno um sujeito inacabado, em constante construção e transformação que, a partir das interações, tornar-se-á capaz de agir e intervir no mundo, conferindo novos significados para a história dos homens. interacao3

A escola, no processo de interação, não implica um lugar onde cada um faz o que quer, mas, conforme Lopes (2008) num espaço de construção, de valorização e respeito, no qual as pessoas são mobilizadas a pensar em conjunto.

Consideramos que o aluno se constitui na relação com o outro e que a escola é um local que reúne grupos diferenciados. Essa realidade acaba contribuindo para que, no conjunto de tantas vozes, as singularidades dos alunos sejam respeitadas.

Portanto, concordamos com Lopes (2008), quando afirma que a sala de aula é um espaço adequado para as ações partilhadas entre os sujeitos. A mediação é, portanto, um elo que se realiza numa interação constante no processo de aprendizagem. Pode-se dizer, também, que o ato de educar é nutrido pelas relações estabelecidas entre professor-aluno.

Muitos fatores influenciam as relações entre os alunos e o professor no cotidiano da sala de aula.

A visão sobre o papel da educação que o professor e os alunos possuem torna-se uma orientação primordial para o trabalho desenvolvido na sala de aula. Para Freire (1987), a educação deve estar a serviço da humanização das pessoas, já que a educação é uma forma de intervenção no mundo.

As orientações curriculares consideram que tudo é tão fascinante que compreender a aventura que o ser humano faz para aprender é algo que desafia todo educador. Isso é particularmente intrigante para os professores que trabalham mais diretamente com a criança pequena, cujas competências para agir, interagir e modificar seu ambiente tem sido cada vez mais investigadas.  O que as pesquisas, que vêm sendo realizadas sobre o desenvolvimento humano têm apontado é que a criança é um sujeito competente, ativo e agente de seu desenvolvimento. Nas interações com outros de seu meio, em atividades socioculturais concretas, as crianças mobilizam seus saberes e suas funções psicológicas (afetivas, cognitivas, linguístas), ao mesmo tempo em que os modificam.

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Daí a importância das crianças terem amplas oportunidades de trocar experiências e conhecimento com outras crianças, seu professor e com os educadores da instituição, com quem passam a maior parte do tempo, e que lhes propiciam a realização de atividades em que elas reorganizam o que existe  criando novos significados.

Nascida em uma cultura historicamente constituída, as orientações curriculares consideram que, a criança é um ser simbólico e de linguagem. Sua experiência nessa e em outras culturas vai lhe exigir e possibilitar a apropriação de signos criados pelos homens para dar sentido a suas relações com o mundo da natureza e a da cultura, que incluem o mundo da técnica, da ciência, da política e das artes, dentre outras áreas de produção humana e a si mesma. Isso coloca a questão da aprendizagem no centro das preocupações dos educadores.

Aprender pode ser entendido como o processo que mobiliza para agir, sentir, conhecer e pensar de cada pessoa que não pode ser atribuído à maturação orgânica, mas à sua experiência. Segundo as orientações curriculares,o aprendizado pode ser realizado em colaboração com diferentes parceiros na realização de atividades, do diálogo, por observação e imitação, ou por  transmissão sociocultural.  Aprende-se, em especial, na relação com o outro, não só com o professor, mas também com outras crianças.  Além disso, aprende-se consigo mesmo, ou a partir da interação com objetos e com outros artefatos e produções culturais.

Referências

Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em “Educação Infantil: Pedagogia Freiriana”. Uninove, 2012/13.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17a. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LOPES, RCS. A relação professor aluno e o processo ensino aprendizagem. 2008. http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/ portals/pde/arquivos/1534-8.pdf Acesso 02 fev. 2013.
MARQUES, L; MARQUEZ, C. Dialogando com Paulo Freire e Vygotsky sobre educação. 2006. http://www.anped.org.br/reunioes/29ra/ trabalhos/trabalho/GT13-1661–Int.pdf
ORIENTAÇÕES Curriculares. São Paulo. 2007. http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Documentos/BibliPed/EdInfantil/OrientaCurriculares_ExpectativasAprendizagens_%20OrientaDidaticas.pdf
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

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3 respostas para Interação e mediação

  1. Sonia Ike disse:

    o diálogo entre crianças e adultos é importante na aprendizagem em todo seu contexto…

  2. Cintia Sayuri disse:

    Adorei a iniciativa e o formato…trocar experiências e vivências é fascinante não somente na infância, mas ao longo de toda a vida!!! O verdadeiro Professor é aquele que além de ensinar…coloca-se na posição de aprendiz!!! Tenho certeza que este será um ótimo ambiente de trocas!!! Abraços…Cintia Sayuri

  3. Grupo de Vânia Tavares Alves* disse:

    Com este comentário gostaríamos de contribuir com o debate sobre Interação e Educação sob a perspectiva do construtivismo. Na teoria piagetiana (Piaget, 1982) considera-se que se interrogássemos crianças de diferentes idades sobre alguns dos principais fenômenos que lhes interessam, espontaneamente, obteríamos respostas bem diferentes segundo a faixa etária das crianças interrogadas. Este e outros autores defendem a ideia de construção do conhecimento, que se inicia na interação com o meio e com o outro. Paulo Freire considera importante para isso a disponibilidade para o diálogo. Segundo Freire, a disponibilidade para o diálogo e a aprendizagem se manifesta em todo e quaisquer lugar, aos quais estes sujeitos frequentam, seja na rua, no parque, na igreja, no quintal de sua residência, no cinema, no shopping e tantos outros locais, dentre eles, a escola. Mas a educação no espaço escolar tem uma peculiaridade a parte, ela se dá pela mediação intencionada, objetiva, flexível de profissionais preparados, com habilidades e competências conceituais e práticas específicas. Para ter um olhar diferenciado, a orientação das instituições, que possuam um currículo com planejamento aberto às mudanças é necessário, bem como um planejamento flexível e não um planejamento gessado, imutável. Nesse sentido, a atitude e o saber posicionar-se do professor é fundamental.

    Claramente se vê que a interação mediada é componente imprescindível no desenvolvimento da autonomia e para a construção desses sujeitos, para conhecimento de si mesmo e do mundo.
    O reconhecimento do “Eu” e do “Outro”, através das experiências adquiridas pelas crianças no início de sua escolarização são a base para sua formação e para a construção de sua inteligência, personalidade, equilíbrio emocional e social.

    Através das atividades coletivas e/ou individuais as crianças são levadas a construírem o conhecimento, adquirindo gradativamente entendimento e aceitação da existência do outro e reconhecimento de si como “sujeito” pertencente a uma comunidade familiar e/ou escolar, iniciando globalmente sua inserção social.

    Os profissionais tendem, cada vez mais, a ter uma formação adequada para educar as crianças, favorecendo e promovendo vivências diversas, com situações de colaboração, trabalho em grupo, a partir de atividades como: brincadeiras, jogos, descobertas e invenções, trabalhando com o lúdico, estes elementos são indispensáveis e facilitadores do ato de interagir corroborando com o pleno processo de ensino-aprendizagem deste sujeitos.

    A interação na educação infantil desenvolvida a partir do construtivismo ou sócioconstrutivismo considera a criança realizadora das suas atividades educativas com ajuda de ferramentas culturais e da mediação do professor. A questão: Que tipo de interação é importante para a criança e para o professor na educação infantil? Pode, o professor, na sua formação continua, aprender com outros professores e trabalhar de maneira colaborativa as novas maneiras de interação que se manifestam na criança?

    Algumas referências bibliográficas
    FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
    PIAGET, J. Seis estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense, 1967.
    ______. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982

    *INTERAÇÃO NA EDUCAÇÃO -Vânia da Conceição Tavares Alves; Solange Alves da Silva; Valquíria Ribeiro da Cruz; Maria Terezinha Gomes; Meire Aparecida de Castro Silva; Karla Almeida Ferreira Yamashita.

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