Menino Conectivo

freire3Eliane de Oliveira Garcia Fulco; Lucicléia de Amorim Soares dos Santos; Maria Helena de Souza Dias; Tânia Penha da Silveira; Tatiana Alves do Prado; Valdenir Marcelino do Nascimento; Marina Cristina Farre Beloni, professoras da educação infantil.

A curiosidade desperta a criança, o ser humano, para a busca, para conhecer o mundo, que lhe permite pensar, idear, explorar e ir além. A pessoa curiosa é um ser sensível, que aprende com os outros e consigo mesma.

Paulo Freire, um homem ousado que foi além das poucas palavras que ouvira e, como um ser curioso, buscou desvendar a realidade para obter respostas que lhe permitiram adentrar-se no mundo educacional. Sua chegada, seu pensamento e sua forma de ver o mundo revolucionaram a educação brasileira, bem como a de outros países fora do Brasil. Eis que chegou então o menino conectivo!

O menino feito homem não perdeu sua capacidade de fazer a ponte e preservar a sua meninice. O termo “Menino Conectivo”, criado por Paulo Freire, possui uma dimensão sócio-histórica de um menino que cresce numa multiplicidade de vínculos.

Os vínculos implicam visão de mundo e ideologização referente ao menino conectivo que deseja, que tem uma curiosidade aguçada da criança em sentir, conhecer e poder se sensibilizar consigo e com os outros seres e demais sentimentos que ainda desconhece.

O menino conectivo é um ser pensante, que faz e se refaz na sua própria infância, que cresce, se torna adulto e não perde suas características: a curiosidade, a sensibilidade e a ousadia, preservadas no coração de criança.

Em Cartas à Cristina, Paulo Freire (1994, p.38) expressa a vitalidade do ser criança mesmo com a preocupação de vida adulta:
… Em nosso caso, havia algo mais vital _ a fome a amainar. Isto não significa, todavia, que não houve em nós, também, ao lado da necessidades que nos movia, o prazer da aventura. No fundo, vivíamos, como já salientei, uma radical ambiguidade: éramos meninos antecipados em gente grande. A nossa meninice ficava exprimida entre o brinquedo e o “trabalho”, entre a liberdade e a necessidade.

A infância caracterizada por Paulo Freire como um momento esperançoso, belo e ativo: “éramos meninos conectivos, […] participando do mundo (FREIRE, 1994, p 39). Também é reconhecida pela (re)leitura ousada que este adulto faz ao apostar na criança que há nele, deixa-se mover pela sua curiosidade, inquietação, pelo gosto de perguntar, por não temer sonhar, por querer crescer, criar, transformar e ultrapassar grandes muros de dúvidas e informações, gerando assim o processo do conhecer e perceber que esta não é temerosa ao encarar a realidade; por mais realista e dura que ela se mostre na caracterização de uma sociedade permeada por contradições e desigualdades, vista pelo aspecto político e pedagógico.

Sob este enfoque político, a visão de mundo de Freire nos desafia a preservar a criança que há em nós, a vislumbrar a construção social a partir dos vínculos cotidianos com os seres, as coisas e a natureza. A partir do momento que conseguimos compreender esses vínculos, a tensão resultante entre o certo e o errado concebido no universo infantil se desfaz ao constatar inúmeras rupturas decorrentes de paradigmas impostos socialmente.

Na educação dialógica, o diálogo que parece ser o meio mais comum é ao mesmo tempo um desafio, pois envolve empenho, dedicação, confiança nas pessoas, nas crianças, no processo de comunicação e de formação. Por meio dele, o ser humano é também capaz de pensar, concordar, descordar, refletir e argumentar.

O pensamento crítico se transforma e é transformado nos vínculos, na sensibilidade e na afetividade que permitem a conexão entre coisas, conceitos morais, éticos, ideias e sentimentos que promovam de fato um retorno às raízes permeadas por estes conceitos enraizados por múltiplas significações inconclusas, que vão se tramando e sendo referência para o menino conectivo.

Um trabalho pautado na complexa relação reflexiva para pensar nas crianças e nos professores envolve uma proposta de educação crítica; e, consequentemente, uma sociedade que permita ao menino conectivo a sua cidadania. O menino que habita em cada um de nós, desperta para a verdadeira conexão estabelecida no sentir, no dizer e no fazer, que nos possibilita uma existência amorosa com os outros e com o mundo.

A existência em espaços de educação infantil, em que as crianças e adultos possam verdadeiramente dar um sentido a sua vida, é o desafio que nos coloca Paulo Freire, com o conceito de menino conectivo.

Referências bibliográficas

FREIRE, P. Cartas à Cristina. (Prefácio de Adriano S. Nogueira e notas de Ana Maria Araújo Freire.) São Paulo: Paz e Terra, 1994.

GOMEZ, M. V. O menino conectivo. Aula do módulo: Redes, conectividade e interação social Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em “Educação Infantil: Pedagogia Freireana”. São Paulo: Uninove, out./dez. 2012. (Cf. Educação em rede: Uma visão emancipadora . São Paulo: Cortez, 2004.)

JASON, Ferreira Mafra. A conectividade radical como princípio e prática da educação em Paulo Freire. Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Educação. Área de Concentração: Filosofia da Educação) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007.

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4 respostas para Menino Conectivo

  1. Ana Paula Barros, Lucia Pereira Nobre Soares disse:

    Consideramos que Paulo Freire, embora advindo de um status social da classe média, conhecia o outro lado, onde a carência social, fazia-se presente na realidade de meninos pobres. Diante desta experiência, mais tarde, cria a expressão menino conectivo, por compartilhar desde criança a realidade difícil e injusta com outros. Ainda jovem pensa em ações transformadoras para uma sociedade mais justa e igualitária. Tem como meta a dialogicidade e o processo de conscientização.

    Na educação infantil, é nas rodas de conversa que a fala de cada é uma maneira de expressar desejos e sentimentos. Educadores e educandos, expressando o mundo, comunicando-se através do corpo e do diálogo. A dialogicidade caminho para expressar-se e expressão do mundo, implica em comunicar-se. A palavra é um instrumento para esta comunicação possibilitada pelos educadores nas rodas, no círculo de cultura, em conversas meramente informais, pois a palavra verdadeira produto da ação e da reflexão abre a consciência para o mundo comum das consciências, em diálogo. Fiori, no prefácio de Pedagogia do Oprimido (1987, p.12), afirma que “o homem só se expressa convenientemente quando colabora com todos na construção do mundo comum, só se humaniza no processo dialógico do mundo.”

    Paulo Freire foi um educador que tinha por característica utilizar figuras de linguagens próprias para expressar-se. Ele mesmo denominou-se menino conectivo. Mas, afinal, o que Freire queria nos dizer quando se posicionava como menino-homem…Paulo Freire dava atenção à realidade humana e possuía uma enorme disposição de conectar-se com o mundo. Em sua juventude vivenciou experiências que possibilitaram-lhe certas aprendizagens: de
    um lado experimentou o status social da classe média de sua família e do outro o coleguismo com meninos pobres.
    Essas dificuldades enfrentadas levaram Paulo Freire a criar a expressão menino conectivo, pois desde pequeno conectou-se com a realidade de pessoas submetidas a situação desumanas e injustas e considerava que isso poderia ser mudado. Em tenra idade, Paulo Freire passou a pensar numa forma de modificar as problemáticas oriundas das desigualdades sociais.

    Pensamos portanto e concordamos com que a sua pedagogia pode muito contribuir na educação infantil; pela dimensão problematizadora, os meninos poderão exercitar a curiosidade, refletir sobre sua realidade, ser cidadãos de direito, com gosto em perguntar e onde a sua busca seja sempre bem-vinda. O diálogo é a base para o processo de conscientização. É através dele que compreendemos o mundo, o criamos e o recriamos. Aprendemos uns com os outros através do diálogo e a comunicação.Na Educação Infantil, através das rodas de conversa, podemos desenvolver um espaço de partilha e confronto de ideias com as crianças. Nesses momentos, todos aprendemos e ensinamos. Cada criança é desafiada a participar do processo, tendo o direito de usar o corpo e a fala para expressar suas idéias, emitir opiniões e pronunciar sua forma de ver o mundo.

    A Pedagogia Freiriana, torna-se possível, afasta da educação infantil ou minimiza ao menos o mero assistencialismo que geralmente a domina, inibindo na criança a curiosidade e criatividade “ontológica e histórica de ser mais”. Esta possibilidade exige uma nova postura também do educador, quem proporcionará às crianças espaços para serem autoras protagonistas do próprio conhecimento.

    Uma sugestão de leitura: FIORI,E. Aprenda a dizer sua palavra. In: FREIRE,P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro. Paz e Terra,1987.

    • Luca Pereira Nobre disse:

      Acabei de ler um texto de “Adilson de Angelo (2006)*, que traz uma importante contribuição aos nossos estudos dentro do curso de pós graduação, Pedagogia Freireana. Pessoalmente me senti envolvida desde o início, por viver e conviver intensamente a educação com os pequenos, li com entusiasmo e claro fiz diversas anotações a respeito. Angelo, coloca a educação infantil como um lugar importante no processo que contribui para a nossa transformação em sujeitos humanos mais completos, em permanente contato com realidades que nos permitem vislumbrar o ser e estar na sociedade, e estar na sociedade implica estar em contato permanente com outros num sentido de diálogo.
      Identifico-me com o texto de Angelo quando afirma e confirma o diálogo crítico e libertador como base fundadora do que chamou de processo de conscientização, onde através do diálogo permanente, permite aos educandos pronunciarem o mundo, sendo mediatizados por esse mesmo mundo, entendendo-o, decodificando-o, e quando necessário intervindo sobre ele para transformá-lo, o saber ouvir do educador é muito importante conciliar tempo e espaço para esta escuta. Ficaria a noite inteira escrevendo mas tenho aula amanhã…
      Este ano estou com 25 crianças, e a roda da conversa, como nos anos anteriores fazem parte da minha rotina diária, com um diferencial tenho anotado suas falas, suas curiosidades, seus apelos, suas idéias. No início da tarde, na própria roda informo-lhes sobre as nossas atividades, perguntando-lhes o que acham …e a recíproca tem sido muito interessante, pois numa linguagem clara, eles opinam, questionam, se rebelam as vezes, mas entramos sempre num consenso, claro através do diálogo, e no final do dia saio da escola mais “sabida” pois compartilhamos do mesmo aprendizado..
      Obs:-,amei este texto, agradeço muitíssimo,

      ABÇ

      *ANGELO, Adilson de. A pedagogia de Paulo Freire nos quatro cantos da educação da infância.. In: I CONGRESSO INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA SOCIAL, 1., 2006, . Proceedings online… Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, Available from: . Acess on: 22 Feb. 2013.
      http://www.proceedings.scielo.br/scielo.phppid=msc0000000092006000100001&script=sci_arttext

  2. Tania Maria da Silva disse:

    A questão é como tecer e dar consistência á trama conceitual freiriana. Através da leitura construímos uma trama conceitual, temos a possibilidade da compreensão da realidade. O início desta trama é o diálogo. Através do diálogo é possível estabelecermos diferentes relações como: Explicitar = Sonhos/Esperanças; Demanda = Escuta; Exige = Criticidade; Estimula = Curiosidade; Possibilita = Construção do Conhecimento; Requer = Amorosidade; Funda = Colaboração; Desenvolve = Tolerância

    O diálogo é a peça central, ele é uma via de comunicação, implica na troca de saberes, através dele construímos o conhecimento, porque questionamos, avaliamos e ampliamos o objetivo a ser conhecido e reconhecido.
    Como educadores estamos atentos ao que está acontecendo com as crianças (interesses, experiências e expressões), isto permite que organizemos melhor os espaços/tempos de ensino-aprendizagem.
    O diálogo é um meio de construção de maneira coletiva e colaborativa, a criança já traz consigo conhecimentos, hábitos, desejos, sonhos, sentimentos e medos que os professores precisam conhecer e respeitar, isto, segundo Paulo Freire, é fundamental para estimular a capacidade e a criatividade de leitura do mundo.
    A criança por si só demonstra uma curiosidade natural e isto tem que ser explorado pelo professor. O estímulo à curiosidade epistemológica através da escuta, segundo Paulo Freire, na medida em que aprendemos a escutar, paciente e criticamente, o educando, podemos passar a falar com ele e não falar para/por ele, como se fôssemos detentores da verdade a ser transmitida.
    As brincadeiras e os jogos fazem parte da cultura infantil, através dos quais a criança aprende a ler o mundo. Sendo assim, ela aprende conceitos, valores e a expressar emoções, desenvolvendo seus sentidos orgânicos.
    As brincadeiras não podem ser entendidas só como lazer e sim como diferentes situações de aprendizagem, que propiciam o desenvolvimento da criança. São nestas situações que entra o eixo organizador de Paulo Freire, sendo o diálogo assumido e concretizado como vetor do desenvolvimento.
    A família também é importante, através dela sabemos as brincadeiras das crianças em casa, com isto podemos integrar educandos, família e escola.
    Os gestores escolares ao intermediar as ações entre educadores-funcionários, docentes, educandos e famílias, juntos elaboram um plano de ação, a partir do conhecimento prévio, para orientar para aproveitar as condições e os espaços para a relação de aprendizagem.
    Os gestores muitas vezes ficam em situações difíceis quanto à utilização de recursos (verbas), pois cada um (pais, funcionários) definem uma prioridade e, através do diálogo, que é o que se espera de uma escola democrática assumir um item como prioritário (brinquedos, manutenção de equipamentos, etc.) Os gestores precisam argumentar, pois estão em busca do bem-estar e do desenvolvimento da criança.
    Paulo Freire acredita que para mudar “a cara da escola” é necessário um investimento forte na formação dos educadores. A formação em grupos coletivos é uma maneira de confrontar teoria e prática, pois assim uma reflexão sobre a aprendizagem do dia a dia seria mais produtiva onde novamente o diálogo seria assumido como o eixo central da trama conceitual de Paulo Freire.

    Esta e uma reflexão feita a partir da leitura inicial do texto “Contribuições de Paulo Freire para a educação infantil: implicações para a políticas públicas” (Saul;Silva)

  3. .. disse:

    A minha experiência de menino, a que me refiro dizendo que eu fui um menino conectivo, quer dizer uma espécie de conjunção entre os meninos de classe média (como eu) e os meninos camponeses, obreiros urbanos, que foram meus companheiros. Eu ligava uns aos outros. (FREIRE, 2000, p.281)*
    *Pedagogia da indignação, 2000.

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