Uma escola triste!

Raquel Ponchio

Pense… Você enquanto professora de Educação Física, de uma Escola Estadual de São Paulo, ser convidada pela diretoria de ensino a se tornar a nova diretora da unidade. Pois o último diretor, que ocupou o cargo durante um (1) ano e nove (9) meses, foi exonerado nessa semana, devido à improbidade administrativa.

Sua primeira reação é de profundo desespero, pois tinha consciência do “barco furado” em que entraria, assim, imediatamente, recusou o novo cargo. No dia seguinte, mais calma, depois de uma noite  inteira de reflexão sobre as prováveis consequências de sua decisão, sua postura ética pessoal e profissional  falaram mais alto e, assim, decidiu aceitar o gigantesco desafio.

Logo você se deparou com uma Escola absolutamente sombria, apática e sem perspectivas, pois apresentava um histórico de frequentes trocas de direção, com isso, nenhuma proposta tinha tempo suficiente para o seu amadurecimento e efetividade das ações. Sem falar que o último diretor era adepto a uma gestão livre e descompromissada, pois entendia que cada qual, professores e funcionários, eram servidores públicos e sabiam exatamente “o quê”  e “como fazer”, por isso, não havia necessidade de nenhum tipo de intervenção.

Era evidente que o último diretor embasava a sua atuação profissional somente com a segunda etapa da teoria Y de MC GREGOR (1990), que defendia a responsabilidade, o estilo democrático e participativo de direção, a capacidade intelectual, a dedicação e as habilidades dos trabalhadores para resolverem os problemas de sua organização. Desta forma, os professores e funcionários da Escola faziam o que consideravam importante, com certa autonomia, mas faltava articulação.

A situação tinha levado a que se definira a presença de grupos distintos dentro da Escola, você não conseguia identificar qual a afinidade principal de cada grupo, se ocorria pela religião, metodologia de trabalho, política, futebol, condição social ou mesmo afinidade pessoal. Detalhe, não era nada fácil pertencer a um grupo quando um novo professor adentrava à Escola, existia um pacto fortemente estabelecido, e o mesmo era “obrigado” a escolher um grupo e seguir as suas respectivas normas.

Como resultado desse tipo de direção na Escola e da inconsequência de alguns professores e funcionários, não existia uma Proposta Pedagógica compartilhada. Você até se recordou do poema de  Shakespeare: “Depois de algum tempo você aprende que não importa onde você já chegou, mas onde está indo, mas se não sabe pra onde está indo, qualquer lugar serve.” Era exatamente assim a visão que você observa de sua Escola, ninguém sabe onde  quer chegar.

Os muros da escola são altíssimos, assemelha-se a uma prisão, além de pichações expressando profunda revolta da comunidade, o pátio da escola é um ambiente escuro e sujo, os banheiros, tanto de alunos como de professores, não têm portas, espelhos, sabonete e papel higiênico, além é claro do mau cheiro e incontáveis pichações de todas as espécies. Todas as instalações da escola apresentam significativos problemas, desde cada sala de aula, como biblioteca, laboratório de informática, cantina, secretaria até a sala do próprio diretor, sem falar da sala dos professores, além de extremamente suja e desorganizada, não contava com cadeiras suficientes para todos e ainda serviam um café tão ruim que permanecia na garrafa o dia todo.

Não existe manutenção preventiva de absolutamente nada e, ainda, quando se quebra um computador por falta de manutenção, permanece sem reparação, bem como os vidros quebrados, extintores de incêndio vencidos, luzes queimadas, fechaduras inexistentes e assim por diante. De acordo com Souto-Maior (2012) é comum nas organizações públicas desperdiçarem recursos humanos, materiais e financeiros.

Os poucos recursos pedagógicos existentes na escola, devido à péssima conservação, não atendem às necessidades do processo de ensino-aprendizagem.

É importante considerar que sua Escola pertence a uma região da periferia de São Paulo, com 200 mil habitantes, com alto índice de violência e criminalidade. Na verdade, sua escola é umas das poucas opções de desenvolvimento intelectual, cultural, social para os seus 900 alunos do Ensino Fundamental II, pois, a comunidade não conta com teatros, clubes esportivos, cinemas, shows culturais etc.  Parece mesmo uma comunidade esquecida pelos órgãos públicos.

Apesar de toda essa turbulência da realidade da Escola, você sofre pressão da Diretoria de Ensino, que sofre pressão da Secretaria da Educação, que consequentemente sofre pressão do Governo Federal, que ciclicamente sofre pressão do Banco Mundial e outras agências financiadoras … para atingirem as metas estipuladas no IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), pois de acordo com os últimos cinco (5) anos, sua Escola apresentou uma média três (3) numa escala de zero (0) a dez (10).

Agora todos contam com sua capacidade pedagógica e administrativa para mudar a história dessa Escola e de todos os seus alunos, que nada fizeram para merecer tamanho descaso.

Senhores internautas esta reflexão é parte de um Estudo de Caso, mas contamos também com a sua experiência e conhecimentos técnicos para traçar novos caminhos e processos de Gestão para essa Escola.   Muito obrigada!!!

Referências Bibliográficas

 MC GREGOR, D. Motivação e liderança. São Paulo: Brasiliense, 1973.

___________. O lado humano da empresa. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

RODRIGUES, L. C. Uma escola sem estratégia ou uma estratégia sem alma? Estudo de caso utilizado na Disciplina Gestão Estratégica, no curso de Mestrado Profissional da Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2012.

SOUTO-MAIOR, J. Gestão de natureza pública e sustentabilidade. São Paulo: Manole, 2012.

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5 respostas para Uma escola triste!

  1. Parte mais difícil de ler este desabafo, é saber que a solução não cabe tão somente da ação da direção que toma como responsabilidade esse desafio. Penso que sem dúvidas o modo que tudo está relacionado, é, vai muito além do que somente uma questão financeira, mas também política. O que muita das vezes ninguém se preocupa dos poderes que possui, nomeado de cidadania ao longo dos 363 dias restantes do ano do que os 2 dias que vão em frente as urnas e depositam então este poder. O papel de um gestor é: estar colocando a ordem e o progresso em qualquer instituição.Importante e ainda mais delicado quando este local é a base de construção de outros profissionais da sociedade.O que ninguém pensa que só porque é uma escola pública se tem crianças que precisam de cuidados e profissionais que não são somente “servidores públicos acomodados”. Respeito a opinião alheia conteúdo não sou obrigada a partilhar do senso comum.
    Claro uma andorinha só não faz verão, me pergunto as vezes aonde estão as pessoas que se dedicaram para se tornarem bacharéis de educação que continuam admitir a situação de trabalhar em um local como descrito acima. Por outro lado é fácil de entender e se auto responder é comodismo, é esperar que o milagre venha do cargo acima. Desculpe a minha sinceridade, é verdade plena.Um erro não justifica o outro, entenda as minhas palavras são de ex-aluna de escola pública que participava ativamente do grêmio estudantil e que por várias vezes não se calou diante das situações que via.Admiro a sua posição de aceitar o desafio, e lhe desejo perseverança para motivar as pessoas que estiverem ao teu lado, para reverter a situação da escola.Pois enquanto não houver exemplo bons suficientes a serem seguidos, não se pode condenar o frutos podres futuros sendo que nunca conheceram de perto o que era realmente bom. Lembre-se que todos vivemos em uma cadeia de obrigações, mas sempre quem está no último degrau é que realmente sentirá o peso dos que estão acima.

  2. Ulisses Ponchio disse:

    Raquel Ponchio, você vai enfrentar uma difícil situação, mas com suas inovações, será uma vencedora.

  3. Silvio Aparecido de Souza disse:

    Uma realidade que ultrapassa as lógicas concretas do mínimo aceitável para o desenvolvimento do ensino aprendizado, não se explica somente por dados direcionado a um personagem ou um grupo. Exonerar um Diretor por sua má administração é muito fácil e cômodo. Agora responsabilizar os pais pelo não aproveitamento escolar dos filhos é muito mais complicado e os próprios alunos por sua falta de interesse pelo ensino formal é quase impossível. Por que não exonerar os pais ou responsáveis do poder familiar, segundo o ECA, art. 129. Inciso V – Obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua frequência e aproveitamento escolar.
    Podendo caracterizar abandono intelectual.
    É Dever do Estado e Direito da Criança e do Adolescente, segundo o ECA, art. 53, ter todos os recursos disponíveis para seu desenvolvimento como pessoa de Direitos e Deveres, porém quando, este aluno ter seus Direitos aplicados e não quer utilizar e nem aproveitar os investimentos públicos, ele pode ser exonerado?. Claro que não!. Então a um desequilíbrio de interesse e a Balança da Justiça e seu martelo pende somente para um lado, do Diretor. Uma escola pública não é uma empresa, seus fins não são lucros, não é uma linha de montagem que no final do dia a produção pode ser contabilizada. Uma escola contribui juntamente com outras instituições sociais com a formação de cidadão apto ao exercício da cidadania, não importa se a pessoa seja um Doutor ou prestador de serviço considerado de fácil manipulação, que importa a uma escola pública é a participação e o sentido de pertencimento a sociedade e sua decisões e quaisquer esfera.
    Entretanto, ante de arrumar culpados e mesmo ser um Messias Salvador da Pátria, conheça a realidade tanto concreta e subjetiva da escola, respeite a história das pessoas envolvidas no processo, não existe uma receita, conceito ou teoria pronta e sim a construção cotidiana nas relações humanas. Todos tem que participar e assumir as co-responsabilidades ter balizas claras e bem definidas corrobora. Na Constituição Federal Brasileira de 1988, afirma que a Educação é responsabilidade de toda sociedade e não somente de uma pessoa ou grupo, senão a rotatividade de Diretor(a) exonerado será incessante.

    Silvio Aparecido de Souza. Professor da Escola Pública Estadual Wilfredo Pinheiro. 14/01/2013.

  4. profluisinho disse:

    Bem, como já é de conhecimento geral dos especialistas da área, as soluções deste tipo de problema não são exclusivas desde ou daquele individuo ou setor. Os caminhos para as soluções perpassam por um complexo processo de integração multiserotial e multiprofissional, envolvendo não apenas os sistemas formais da educação, mas sobre tudo a comunidade e principalmente as familias, obviamente sobre a batuta competente e comprometida de um experiente maestro (você). Tomando-se como base todo o referencial teorico dos principios de gestão participativa, associado aos fundamentos pedagogicos de busca da efetividade e eficácia do processo ensino-aprendizagem e formação integral dos cidadãos, deve se ter em vista que será um caminho longo, arduo e com inúmeros obstáculos a serem superados. Mas sem nunca perder o otimismo de que é possível. Eu acredito!!!

  5. Leonel Cezar disse:

    Raquel,
    Se esse é o seu desafio, bem vinda ao mundo da Educação brasileira. Se de um lado, tocar um barco que singra em águas calmas e vai de vento em popa é bom porque não exige muita imaginação, mas muito mais tino orientativo e alinhamento executivo, de outro, comandar uma canoa que parece estar furada é um desafio que exige imaginação, visão e motivação. Isso é para líderes, não para executivos!…
    Se vc. foi a escolhida, é porque vc. foi reconhecida como uma líder! A tarefa vai ser difícil e vai requerer muito trabalho, mas como tantas outras escolas já mostraram que é possível resolver esses problemas, tenho certeza, pelo que a conheço, que vc. vai saber achar o caminho certo e direto para o sucesso de sua escola. As crianças sob a tua tutela, a sociedade, o Brasil precisamos das tuas soluções. E tenho certeza que vc. vai conseguir!!

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