Documentários: Uma possibilidade contemporânea da educação

Sylvia Paula de Almeida Torres Vilhena

Dar asas a sonhos ao aproximar os cidadãos de propostas cinematográficas se deve, em parte, à rápida disseminação e uso de tecnologias que permitem registrar imagens e sons, até por crianças bem pequenas. Esta realidade contemporânea nos desafia para viabilizar a documentação de fatos e momentos de interesse do sujeito e da sociedade. O filme, quando pensado como uma possibilidade para a concretização de uma pesquisa, um artefato cultural, nos permite documentar a realidade e a mesma investigação no campo da educação.

O documentário é o gênero fílmico que explora a realidade e pode transformar-se em algo factível de ser pensado e realizado pelo pesquisador ao se observar alguns parâmetros. Diferentemente de filmes publicitários, noticiosos ou mesmo de propósitos didáticos, o documentário compromete-se com a retratação de uma verdade, não a única, não a realidade total, mas uma verdade que, conquanto intencional e subjetiva, observa determinados quesitos.

 Vale-se de procedimentos próprios do cinema, como a seleção estética de enquadramentos ou planos, ou preocupações com iluminação, som, montagem, ou ainda, organização do trabalho em etapas – pré-produção, produção, pós-produção, porém, para manter proximidade com a realidade, como diz Penafria (2001), “deve respeitar um determinado conjunto de convenções: Não direção de actores, uso de cenários naturais, imagens de arquivos, câmera ao ombro, etc.”. A relação que se estabelece entre o documentarista e os personagens que pretende registrar, difere totalmente da que ocorre no cinema ficção. Nesse há uma direção dos atores em suas manifestações, no documentário nem assim são denominados, usualmente os personagens são citados como intervenientes.

Inegavelmente há que se fazer uma pesquisa prévia sobre o que se pretende registrar, como também há a escolha pessoal de um ponto de vista que é articulado a partir do controle de sequências, dos planos, das opções estéticas, sonoras, ou mesmo encaminhado quando da edição de quadros, já em etapa final de produção. Não se nega a subjetividade, contudo há que se assegurar realidade.

A preparação do documentário implica estudar o tema antecipadamente, delinear o que se pretende, no entanto não permite garantir falas e ou movimentos determinados de quaisquer personagens.  São muitas e diversas as possibilidades de estruturação e desenvolvimento de um documentário e a evolução de sua própria história pode pontuar algumas dessas aberturas.

Considerado pioneiro dos documentários, o filme mudo, Nanook of the North, realizado por Robert Flaherty e apresentado em 1922, é fruto de muito estudo, muita observação, convivência com os esquimós (de 1911 a 1921) e adoção de procedimentos inovadores.

 Flaherty não só filmou a vida de um esquimó, seus procedimentos para a caça, o compartilhamento cultural em um iglu, mas inaugurou uma prática que mais tarde foi adotada por Jean Rouch, já em meados do século XX. A prática de que se fala estabelece-se como um dos pilares da “antropologia compartilhada”. Flaherty, após as filmagens do dia, revelava os filmes e os apresentava à comunidade para que essa opinasse sobre as cenas, a montagem do filme.

Dziga Vertov é outro pioneiro do documentário, mas se apresenta em contexto diverso. Os artistas russos, após a Revolução de Outubro de 1917, se organizam em um movimento de vanguarda – Frente Esquerdista de Arte –, que publica vários manifestos. Vertov propõe reflexões sobre o próprio cinema, condena a ficção e exalta as possibilidades do “cinema verdade”. Como característica, pode-se destacar sua técnica de montagem, que se pauta no domínio de intervalos, evidenciada pela descontinuidade de tempo e espaço. Destaca-se o filme O homem com a câmera, de 1929.

Sucessivamente, ao longo do século passado, os documentários são produzidos observando características diferenciadas. Ora, apresentam-se as imagens e o que conduz a narrativa é uma voz em off; ora, a proposta se torna nitidamente etnográfica, como o que ocorre com os antropólogos George Bateson e Margareth Mead, em que o foco principal do trabalho é a edição das imagens.

Na década de 1950, o cineasta francês Jean Rouch se destaca por suas propostas de cinema verdade. Produz filmes etnográficos em que retrata a situação da população do Niger. Nos anos 1970, trabalha com Jean-Luc Godard e o brasileiro Ruy Guerra, inclusive encaminhando uma nova política cinematográfica e televisiva. Vem ao Brasil promover cursos de cinema.

Pode-se, também, situar um terceiro movimento do documentário centrado nas questões da semiótica. Essa tendência ganha força a partir da década de 1960 e articula língua e linguagens; pauta-se no destaque a símbolos, significados e significantes. O retorno não vem da edição e sim da fala. Há um vai e vem entre falas. Destaca-se, por exemplo, Christian Metz.

Analisando as produções, nos diversos momentos e temas que pautam os documentários, auferem-se propostas e técnicas diversificadas que podem sugerir abordagens específicas para alguns temas. Assim como John Grierson, que se notabilizou no documentário inglês ao centrar seu trabalho no estudo da fotogenia, na tipificação, para evidenciar uma perspectiva da sociedade, aberta para uma eventual mudança, outras propostas podem surgir e ou serem adotadas com vistas a melhor retratar o que se propõe.

O documentário permite um certo distanciamento, recurso adotado por Bertold Brecht, o que viabiliza controlar o trauma, dar coerência e domínio sobre fatos já havidos, como o que ocorre, por exemplo, no filme Little Dieter needs to fly, de Wener Herzog (1977/ Guerra do Vietnã/Laos).

Nessa perspectiva, assumo a minha própria trajetória como professora da educação infantil, as minhas memórias, e, na minha pesquisa eu chamo a atenção para os estudos da memória na formação/atuação do profissional da educação infantil,  que  ocorreu em certa realidade para  recontar e rescrever uma história. Especificamente, indagarei sobre o brincar e será isso que pretendo documentar.

Deixo aberto o convite para pensar sobre a importância de produzir breves documentários, que certamente demonstrarão uma perspectiva da nossa realidade, o que viabiliza uma certa suspensão no tempo para a reflexão; permite o compartilhamento de uma verdade que pode ser debatida, uma cultura que pode ser melhor entendida e acatada para aí então, num processo de conscientização, ser objeto de redirecionamentos com o intuito de melhor qualidade de vida para todos.

 

Referências bibliográficas

COELHO, Rafael Franco.  Algumas notas sobre a história do cinema documentário etnográfico. Revista Comunicación, n. 0, v.1, ano 2.012, p.755-766. ISSN 1989-600X.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo:  Papirus, 2007.

PENAFRIA, Manuela. O ponto de vista do filme documentário. 2001. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/penafria-manuela-ponto-vista-doc.pdf. Acessado em 10 de novembro de 2012.

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Uma resposta para Documentários: Uma possibilidade contemporânea da educação

  1. Maria Joseneide Apolinario disse:

    O documentário é uma excelente fonte de informação e pesquisa. Além de ser muito prazeroso. Particularmente gosto muito de estudar por documentários, acho muito rico, principalmente por conta das imagens. O documentário tem o poder de nos reportar ao local do acontecimento, aos personagens, às paisagem, como num toque de mágica. Nos revela uma verdade, não a única,é claro!
    Parabéns pelo artigo!
    Maria Joseneide.

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