Currículo como artefato cultural e as identidades femininas

Alessandra Aparecida Dias Aguiar

Nos limites desta postagem recorremos à própria experiência para uma aproximação ao conceito de currículo que, apesar de sua ampla discussão nos últimos tempos, propicia, ainda, uma gama de entendimentos. Para alguns, é um rol de disciplinas oferecidas pela escola; para outros, currículo é plano e proposta.

O currículo escolar como um instrumento de confronto do saber sistematizado com o saber empírico é compreendido como um campo de lutas e conflitos em torno de símbolos e significados. Ou seja, como um “artefato cultural”, está em constante processo pelo qual a construção do conhecimento, do sujeito e as mudanças e a transformação ocorrem.

As transformações do conceito de currículo são apresentadas por Tomas T. da Silva (2004) e sistematizadas no seguinte quadro:

Quadro 1:  Breve síntese das categorias,  que compõem o campo teórico curricular tradicional, crítico e pós-crítico e as idéias que permeiam sua organização(Silva, 2004, p.17).
Teorias Tradicionais Teorias Críticas Teorias Pós-Críticas
• Ensino• Aprendizagem

• Avaliação

• Metodologia

• Didática

• Organização

• Planejamento

• Eficiência

• Objetivos

• Ideologia• Reprodução cultural e social

• Poder

• Classe Social

• Capitalismo

• Relações sociais de reprodução

• Conscientização

• Emancipação e libertação

• Currículo oculto

• Resistência

• Identidade, Alteridade, Diferença• Subjetividade

• Significação e Discurso

• Saber – poder

• Representação

• Cultura

• Gênero, raça, etnia, sexualidade

• Multiculturalismo

A partir da teoria pós-crítica os eixos articuladores do conceito de currículo se ampliam. Como um artefato cultural se produz discursivamente em uma ação contínua, pois, epistemologicamente é um saber progressivo e inacabado. O currículo é um artefato cultural em dois sentidos (Silva, 2004):

  • É uma invenção social como outra qualquer.
  • E não pode ser compreendido sem uma análise das relações de poder que o fazem possível.

Sendo assim, considero relevante a postura de Torres Santomé (1995), que questiona como determinadas culturas são negadas e silenciadas no currículo. Quando se analisam os conteúdos que são desenvolvidos de forma explícita em algumas instituições escolarese aquilo que é enfatizado nas propostas curriculares, chama fortemente à atenção a presença de certas culturas em detrimento de outras.

As culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários e\ou marginalizados, que não exercem o poder costumam ser silenciadas, quando não estereotipadas e deformadas, para anular suas possibilidades de reação.

Torres Santomé (1995), destaca o mundo feminino como uma das culturas ausentes no currículo, no qual, faz um paralelo com os filmes hollywoodianos, onde apresenta os homens como seres ativos e fortes e por outro lado as mulheres sempre relacionadas à beleza e sexualidade.

De acordo com o mesmo autor o sistema educacional tem que contribuir para situar a mulher no mundo, o que implica, entre outras coisas, redescobrir sua história, recuperar a voz perdida. E acrescenta: “se existe alguma coisa, que os alunos e alunas das instituições escolares desconhecem é a história da mulher, a realidade dos porquês de suas opressões e silenciamentos” (p.172). Estudar e compreender essa historia, é um bom antídoto para impedir a marginalização destes discursos e evitar que continuem sendo reproduzidos.

O currículo como um artefato cultural, um espaço, um campo de produção e criação de significados, permite que se façam presentes os interesses das diversas manifestações sociais contribuindo com a valorização dos grupos e das identidades femininas no processo educativo.

As questões apontadas aqui sobre o currículo como artefato cultural e as identidades femininas, são algumas anotações para o inicio de nossa conversa!

 Referências

SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica. 2004.

TORRES SANTOMÉ, Jurjo. As culturas negadas e silenciadas no currículo. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis: Vozes, 1995.

 

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5 respostas para Currículo como artefato cultural e as identidades femininas

  1. Liliane de Almeida disse:

    É importante apresentar um novo olhar para o currículo, esta percepção de currículo como artefato cultural é muito importante, considerando que aqui neste texto a ideia é “por luz” na identidade feminina, vale a pena refletir sobre a cultura machista que nós mulheres, tendo em vista que somos a maioria na profissão, ainda reproduzimos no espaço escolar, as diferentes maneiras de valorização desta cultura machista que ainda estão presentes no nosso dia a dia e que nós ajudamos a perpetua-las. Já passou da hora de discutirmos e transformarmos esta realdade. Parabenizo a atitude e, como professora, já me sinto contemplada com o artigo.

    • jenyree disse:

      Saludos! Este tema sobre el currículo es un tema porque si lo consideramos un instrumento cultural, pues entonces ya tiene un elemento transformador. Al tema que Alessandra Dias nos expone yo agregaría dos factores que están incidiendo en el poco reconocimiento de los marginados, uno referente al tiempo de producción y cambios en el currículo escolar y el segundo relacionado a la participación representativa de dichos grupos en su producción. Estos dos elementos son esenciales para cambiar nuestras prácticas, por supuesto desde una visión que refleje los cambios que queremos en nuestras escuelas. No sólo es el tema de la mujer, sino de a violencia, el género, los derechos humanos, el amor, la espiritualidad, todos estos temas que han dejado al currículo corto en sus expresiones y que definitivamente esta dando respuesta a un mundo que requiere de capital y no seres humanos integrales. Podemos seguir haciendo cada mas un espacios donde se desconstruya el currículo para construir desde nuestros propios espacios y necesidades. Seguimos reflexionando!!! Jenyree Alvarez. Caracas/Venezuela

      • Alessandra disse:

        Obrigada pelo comentário Jenyree Alvarez, concordo com você que a educação precisa pensar um currículo que valorize os marginalizados e os excluidos e não somente as mulheres. Este texto faz parte do meu projeto do mestrado e a pesquisa não tem a intenção de colocar as meninas no centro da discussão e sim apontar por meio delas alguns questionamentos: o currículo fortalece ou questiona a manutenção da discriminação em relação ao ser feminino? Como o currículo constrói as identidades femininas na prática escolar de educação física nesta escola?
        Um abraço, Alessandra

    • Alessandra disse:

      Obrigada pelo comentário Liliane temos sim, que pensarmos em um currículo que contemple a diversidade e que a qualidade educacional não fique apenas no discurso acadêmico. Abraço Alessandra

    • Alessandra disse:

      Obrigada pelo comentário Liliane, temos sim que pensarmos em um currículo que contemple a diversidade e que a qualidade educacional não fique apenas no discurso acadêmico. Abraço Alessandra

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