Dimensão politica da formação do professor

Maria Helena Kerbej

Pensar a educação como ato de conhecimento e não vê-la como um ato político é não compreender os interesses que movem a sociedade e o seu potencial transformador.

A dimensão política pode ser constatada na simples escolha dos procedimentos didáticos e na maneira como são trabalhados os conteúdos em sala de aula. A escolha desses se faz perante as crenças, ideologias e interesses nos quais o professor atua e acredita. Pode-se discutir se o professor consegue perceber quais valores lhes foram sutilmente incutidos, desde a infância durante o seu processo de formação.

Na graduação, a maneira de se elaborar uma proposta curricular para a educação física, por exemplo, que é a minha área de atuação me faz refletir sobre a própria formação e atuação como professora levando-me a deparar com pressupostos políticos assumidos no ato de conhecer, ensinar e de ser profissional.

Existem propostas de formação onde os futuros professores são levados a pensar na questão social da educação. Alguns vêm seu trabalho social como neutros em relação ao status quo, aceitando esse como sendo imutável e, portanto sua formação é pensada de forma descontextualizada. Em algumas situações pode-se constatar a formação baseada em técnicas que são norteadas por especialistas que indicam as habilidades, competências e conhecimentos que são relevantes para a formação. Em outras essa formação se baseia na teoria cognitiva psicológica e tende a privilegiar a habilidade do professor para reorganizar as percepções e crenças sobre o ensino de comportamentos, conhecimentos e habilidades. Em um terceiro tipo de formação, os futuros professores, embora percebam que as técnicas não são necessariamente aplicáveis em todos os contextos, são levados ao processo de tentativa e erro para adequar e facilitar a aprendizagem, porém ainda de forma descontextualizada, sem comprometimento com o lado social e aceitando que o status quo é determinado.

Por outro lado, baseando-se na teoria social critica pós-moderna, pode-se dizer que existe uma conscientização do professor transformador. Nesse tipo de formação, a educação está sustentada na pesquisa, o aluno e o professor são autores ativos do seu conhecimento, o que os levam a produzir-se como sujeitos e a valorizar questões sobre o propósito da educação, pois desenvolvem a pesquisa que lhes permite analisar o que eles estão fazendo conjuntamente, com as escolas e com a sociedade.

Segundo Joe Kincheloe (1997), a formação pedagógica do professor é inerentemente política, pois nos leva a agir criticamente diante a manutenção de situações institucionais dominantes e a buscar outros arranjos educativos, da escolarização e da própria formação por meio de atitudes sociais, econômicas e políticas que os acompanham.

Diante a proposta de formação como compromisso político estamos conscientes do poder das várias dimensões envolvidas no ato de ensinar e, portanto percebemos que as políticas educacionais estão atravessadas também pelas necessidades e interesses dos lideres da área dos negócios e das indústrias. Dessa maneira forma o futuro professor de educação física ao perceber e fazer essa leitura e compreensão do mundo social vai construído uma outra realidade ao longo da sua prática que lhe permite reconstruir (se) na mesma.

Como professores, encorajamos os alunos a adquirirem hábitos de leitura de mundo, da palavra, da escrita e de pensamento, gerando espaços para sair na busca, explorando e fazendo parte da autoria pela oportunidade que tem de ler de maneira mais profunda desconstruindo certa convenções sociais que não lhes favorecem. Ir além dos mitos dominantes sobre o corpo, o movimento e o conhecer, fortalecendo-os a se despirem dos preconceitos de todos os tipos, criando assim o dialogo aberto, privilegiando a cultura de base para acolher outros sistemas culturais.

E por fim, creio que a educação comprometida e realizada com grupos comunitários auto-organizados é a mais poderosa pedagogia, pois o futuro professor ao tornar-se parte de um grupo social e, através de sua pesquisa e competências pedagógicas, pode vir a construir juntamente com o grupo uma consciência democrática e a elaborar ações contra a hegemonia, promovendo transformações emancipatórias.

Na educação física, essa proposta de educação baseada numa pedagogia critica gera o dialogo e a relação entre o professor e o aluno que pode ter como ponto de partida, as preocupações e anseios dos alunos em formação. O professor, portanto, parte da cultura e identidade social e corporal dos futuros professores levando ambos a aprenderem nesse movimento.

Esta reflexão realizada no contexto da formação de futuros professores de Educação Física, nos permite reler a própria prática do redizer o dito e gerar temas que nos conectam a uma proposta curricular emancipatória em prol de uma educação democrática.

Referencias
KINCHELOE, J. L. A formação do professor como compromisso político: mapeando o pós-modernismo. Artes Médicas: Porto Alegre, p. 11-25, 1997.

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Uma resposta para Dimensão politica da formação do professor

  1. Maurício Teodoro de Souza disse:

    Maria Helena,
    Sua abordagem sobre o papel político do professor, em especial o professor de educação física, traz à luz questões importantes que muitos pensam estar ausentes de suas aulas, pois entendem poder não assumir uma posição política, atitude impossível de se realizar nas diferentes manifestações humanas. Assim, entendo ser este o início de sua jornada.
    Penso que a cada momento de reflexão que tiver poderá aprimorar o sentido da docência que defende e proporcionar àqueles interessados espaço para discutir o contexto educacional de maneira engajada. Árduo esse caminho, mas encarnado demais pra voltarmos atrás.
    Parabéns!
    Maurício

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